sábado, 2 de abril de 2022

Papoilas

Cada vez que vejo papoilas que penso em ti, que me vem à memória, à lembrança, aqueles tempos em que pelos caminhos que levavam ao rio e à queda de água passeávamos e apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças. 

A nossa casa dava sobre um cruzamento para a estrada principal, era uma casa antiga composta de dois andares, num primeiro andar o apartamento, ao rés da estrada tínhamos a garagem, um antigo estaleiro de carroças da altura em que os carros ainda não existiam e o comboio era rei. Quando saiamos, descíamos pelas escadas exteriores que davam directamente sobre a estrada, do outro lado havia um parque de estacionamento e a antiga estação de comboios agora transformada em escola primária, e depois o rio, o rio atravessava tudo, vinha da direita, passava por debaixo da ponte que fazia a ligação entre a estrada onde vivíamos e a povoação e continuava para baixo, por detrás do parque, da escola, e descia ate à grande cascata que caia a pique, que fazia o nome da terra e que atraia turistas de todos os lados. Naquele verão, a azafama que pairava naquele cruzamento antes da ponte e naquele parque de estacionamento era de tal ordem que a mim só me apetecia fugir, ou ficar fechado em casa de janelas fechadas, ouvidos e olhos tapados à espera que o tempo e o barulho das buzinas e das motas passassem e nós, no meio disto que só queríamos viver descansados no campo, no meio das árvores e do silêncio. A casa tremia com o passar dos camiões ainda antes das seis da manhã e o barulho só terminava à hora que o sol se punha. 

Saia contigo de manhã, tentava faze-lo cedo, quando ainda não havia ninguém na rua, a passear, levávamos a Emma connosco, descia as escadas com ela pela trela e tu pelo braço, com paciência poderia deixar-te descer sozinho,  às vezes acontecia, mas àquela hora da manhã já estava enervado, andava sempre enervado, sempre com pressa que fizéssemos a nossa volta sem sobressaltos, primeiro, descer as escadas, depois, atravessar para o outro lado da rua, depois, atravessar o parque de estacionamento e a escola e depois sim, relaxar um bocadinho enquanto caminhávamos de mão dada ao longo do rio. Aí, largava a cadela da trela mas sabes como ela é, uma vadia que não ouve ninguém, não quer saber, só quer é vadiar e cheirar por aqui e por ali, e lá ia ela, bem mais à frente, abandonando-nos e deixando-me sempre no meio termo entre a velocidade de cão e a velocidade de caracol, de um pequeno menino de pouco mais de ano e meio que só queria brincar e descobrir o mundo e eu já enervado, anda Gabriel, anda que o pai tem que ver onde é que anda a Emma, anda, que vem lá alguém com um cão, e tu sempre de arrasto que eu ainda tinha na memória a historia do pitbull, e cada vez que a saiamos que eu vivia stressado com essa história e com medo de encontrar outros cães pelo caminho, e que ela se fizesse atacar e isto e aquilo e tentava despachar os nossos passeios o mais depressa possível, para poder voltar para dentro de casa onde o stress  e o medo deixavam de existir. 

Mas nem sempre foi assim, na maioria das vezes guardamos na memória os traumas que nos percorrem e sofremos com o passado esquecendo os bons momentos que passámos, ao prolongarmos o caminho à beira rio parávamos sempre numa pequena clareira no meio dos pinheiros, mais afastada da estrada e do percurso pedestre principal, ai, não havia ninguém e ficávamos por lá, a brincar com as fagulhas dos pinheiros ou a desenhar com paus no chão, do outro lado do cruzamento havia igualmente uma clareira, enorme, cheia de erva, de malmequeres e margaridas e passávamos horas a ver as borboletas azuis que por lá dançavam, mas o que tu mais gostavas era das papoilas, as bordas ao longo de todo o caminho pedestre que descia para a cascada estavam carregadas de papoilas, e tu adoravas apanhá-las, uma para ti, uma para mim, uma para a mãe.

Ontem de manhã ao chegar ao trabalho vi as primeiras papoilas da estação, e fiquei assim, a pensar em ti, o dia todo a pensar em ti, elas eram e são como tu, assim tão belas e tão frágeis que assim que as arrancamos da terra que as suas pétalas caem, e eu, sempre na minha brutalidade sem tacto para cuidar, tento fazer o melhor que posso e lembrei-me desses tempos, desses tempos em que apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

1984, o Aviador Ucraniano e as Teorias da Constipação

 

Muito tenho vindo a pensar sobre as cada vez maiores semelhanças entre a distopia de Orwell e a realidade que vivemos, no entanto, e antes de vos contar a história do aviador ucraniano gostaria de fazer um paralelo sobre uma passagem de 1984 que me ficou na memoria (a reler) e o presente momento em que vivemos. Ora se bem me lembro, e não querendo cair em erro, havia uma cena, ou uma ideia, em que a ração de chocolate é reduzida de um dia para o outro, e as pessoas nesse mesmo dia já nem se lembram que a ração de chocolate era superior no dia anterior, e que todo este tipo de medidas eram sempre tomadas pela segurança da população e do estado, ao mesmo tempo existem na história três potências mundiais que estariam constantemente em guerra (sempre guerra nas fronteiras e pelo que me lembro, acordadas entre eles) reduzindo de mais em mais as liberdades e direitos das pessoas, do povo (nota que este livro é também o livro onde o conceito de Big Brother é inventado, o Grande Irmão, que vê tudo e sabe tudo, de onde deriva esse magnífico programa de televisão) no entanto, e citando João Bernardo na contracapa da minha versão de 1984 publicado pela Antígona: “ Curioso percurso, o desta alegoria inventada para criticar o stalinismo e invocada ao longo de décadas pelos ideólogos democráticos, e que oferece agora uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização  em que passaram a assentar as democracias capitalistas.”

No entanto, o que é que tudo isto tem a ver com o aviador ucraniano, tem a ver que fruto da companhia diária dos meus amigos romenos, obviamente e por várias e distintas razões como por exemplo a simples geografia, estão bastante mais interessados do que eu nesta história da Rússia e da Ucrânia, e vim, como dizia, a saber desta história de um aviador da força aérea ucraniana, que quando foram dadas as ordens de pegar no avião e ir para a guerra ele virou a sul e foi de jacto aterrar na Roménia, em Bacau, de onde é um dos meus colegas, fugindo assim da guerra, desertando e era precisamente neste ponto que eu queria pegar.

Se, e digo se, todos os militares russos se recusassem a combater e a responder a ordens de malucos, pura e simplesmente não haveria guerra, o mesmo vai para os militares ucranianos e para todos os militares do mundo, se não houvessem militares para executar ordens como poderia haver guerras destas? Se o presidente da república ou o teu patrão te mandar saltar duma ponte tu tens sempre a escolha de recusar, obviamente que podes ter que arcar com as consequências dessa recusa, mas se aqueles que forem aplicar as sanções a essa recusa, se recusarem também eles de sancionar, percebe-se onde quero chegar? E se o policia se recusar a servir a autoridade e trabalhar para um governo corrupto e aceitar servir o povo que se manifesta? Nada é mais do que uma questão de escolha individual, ganhando a consciência de que todos somos um e que todos somos irmãos a recusa de matar ou de agredir torna-se evidente, mas, é logico que é preciso ganhar essa consciência e a coragem de o fazer. Se o aviador ucraniano ganhou essa consciência ou não, eu não sei, mas sei que pelo menos ganhou medo pela vida e consciência que seria ridículo morrer por cumprir ordens de tolos muito confortáveis nos seus cadeirões de couro a fumar os seus charutos cubanos.

Tu, eu, nós, todos temos o poder da escolha, o poder de aceitar ou não cumprir ordens, e o mesmo vai para a loucura do Covid, para as escolhas politicas, alimentares e de consumo geral, por exemplo, és contra a destruição da Amazónia, toda a gente o é, mas toda a gente continua a comer carne primeiro preço alimentada com cereais, nomeadamente a soja que vem e é responsável por essa mesma deflorestação, basta fazer a escolha de não consumir (nota que 80% da soja produzida na Amazónia é para alimentar animais, que por sua vez são criados para nos alimentar) boicotando o produto, boicotas o sistema, cabe a ti e a todos de o fazer,  como os produtos da China, O MacDonald, o Aliexpress, a CocaCola, a Amazon e etc, mas tem que se ter a consciência das consequências e aceitar que não se pode continuar a viver da mesma maneira, as pessoas querem tudo, falam de tudo, criticam tudo, mas a capacidade para agir, que está mesmo ao seu alcance fica sempre para amanhã, metendo bandeirinhas da Ucrânia ou do “Je suis Charlie”, ou do que quer que seja no perfil das redes sociais, e os Iémens e as Somálias, e as crianças e isto e aquilo, onde andam? Vão com o buzz mediático? A Maria-vai-com-todos? Não, não quero eu, na minha humildade pregar sermões ou falsas morais, mas, eu tenho a consciência de que é preciso agir e parar com a hipocrisia, que é preciso abraçar essas decisões e sim, eu tomo-as e eu faço-as, como já tenho vindo a falar por aqui. Continuo a acreditar que o boicote é uma das melhores armas que temos contra este sistema e citando Gandhi “sê a mudança que queres ver no Mundo” tento faze-lo, o melhor que posso, e acredito que a mudança virá um dia, esteja eu ainda aqui ou não!

Para concluir e voltando a 1984, qualquer parecença entre esta distopia de Orwell e a realidade nada mais é que uma pura alucinação de complotista, negacionista, brunista e mais uns quantos istas, e sendo eu muitos desses istas, serei aquilo a que muito consideram ou chamam de maluco, deixem-me então ser um maluco, portarei de bom grado o meu chapéu de alumínio, protegido contra ordens alienígenas, serei e sou um maluco, mas um maluco livre, livre e consciente das minhas escolhas e consequências das mesmas, prisioneiro num mundo de malucos, sim, talvez todos eles, sem dúvida muito mais malucos do que eu, mas deixem-me ao menos viver livre a minha loucura, às crianças e a todos aqueles que querem ser verdadeiramente livres e não nos queiram prender no vosso mundo!



Publicado originalmente no Facebook a 26 de Fevereiro de 2022

Matei o galo, Charly à Morue

 

Matei o galo ontem, não, esta crónica nada tem a ver com Benfica-Sportings nem futebóis, faz três anos que não vejo um jogo de futebol, e para quem me conhece sabe o quanto isso é grave, mas não posso, nem quero, apoiar mentiras por isso simplesmente boicotei, chamem-me brunista, negacionista ou qualquer outro ista, na verdade, nem sequer sabia que jogavam, descobri hoje por acaso, no meu feed de noticias do facebook, mas pronto, voltando ao assunto e ao galo…

Matei o galo, ontem de manhã, apanhei-o de manhãzinha na alvorada gelada, assim que abri a porta do galinheiro, estava à espera dele com um saco, para o caçar assim que ele saísse, e ele saiu, como sempre em primeiro, mas por forças ocultas mudou a sua rotina ou sentiu a minha presença ou pressentiu o seu futuro e ficou à porta, sem avançar, fi-lo avançar com um gesto e fechei a porta atrás dele para que as galinhas não saíssem, para que elas não vissem (olhos que não veem coração que não sente, diz-se) o saco já não servia para nada, corri atrás dele e entalei-o contra a vedação, apanhei-o, segurei-o pelas patas, virei-o de cabeça para baixo e levei-o para o lugar que tinha preparado no canto do jardim, uma tabua rija no chão, o machado, uma faca e uma panela, e preparei-me para a matança. Pousei-o sobre a tábua, pus o joelho em cima das patas, para que não as mexesse, puxei-lhe as asas para trás das costas e prensei-as também com o outro joelho libertando-me assim as duas mãos, fiz uma prece por ele, sem juntar as mãos que não preciso disso, ele, ainda mexia a cabeça e tentava levantá-la, mas à força da posição ela ficava à mercê do meu machado e foi o que fiz, peguei no machado e de um golpe só, seco e forte, matei-o, cortei-lhe o pescoço, o corpo estrebuchou com força, abanou e segurei-o para que não fugisse pelo jardim, de cabeça pendida a correr-me por cima das couves, morreu de um golpe só, mas mesmo se o pescoço tivesse separado do corpo a pele não se tinha separado, ora ou o machado não estava suficientemente afiado ou a pele, demasiado forte e elástica não cedeu e por isso tive que fazê-lo com a faca, degolei-o e deixei escorrer o sangue para a panela, queria tentar aproveitá-lo para fazer uma cabidela, mas como não sou ainda muito dotado nestas coisas não consegui recuperar grande coisa. Fez-se silêncio. Depenei-o na hora, mesmo se tinha preparado uma panela de água a ferver, sabia e já o tinha feito a seco com o meu outrora cunhado, na região de Ardéche, na realidade enquanto o corpo está quente consegue-se arrancar as penas sem problemas, tirando as maiores, das asas e da cauda, mais duras a arrancar.

 Levei-o para casa onde o lavei, limpei o interior, abri-o pelo ânus e extrai todo o interior, os intestinos, pulmões, fígado, coração, tudo, a moela também, no entanto é preciso abri-la e limpá-la, coisa que falhei, cortei-a onde não devia e sujei-a, é o que dá ser um maçarico nestas andanças, então, mas ò Pedro, nunca fizeste isso? Nas férias, no natal, na terra? Terra? Qual terra? Como gostava de responder com orgulho ou ironia, a minha terra era o Cacém, bom, mais precisamente a Agualva-Cacém, mas isso era mais difícil de explicar, o natal e as férias grandes eram lá passados e era a minha avó, que na sua sábia e longa existência analfabeta, sabia todas estas coisas da terra, até que a casa, os campos e as quintas ao pé do campo do Agualva foram arrasados para a construção de prédios e mais prédios, e até que ela, e o meu avô foram viver para um apartamento num terceiro andar, e ela, mais resistente que o meu avô, foi envelhecendo até morrer com os seus altivos noventa e seis anos, e eu, mesmo se ainda me lembre dessa humilde casa onde o meu pai e os meus tios cresceram, debaixo de uma figueira entre galinhas e coelhos, nunca pude, infelizmente, ter acesso a esses conhecimentos, por isso, a moela, acabou por ser cozida com outros restos e ossos para o cão, que aqui nada se desperdiça!

A minha mulher disse-me, ah, lá vais tu fazer outra vez a moral aos outros, não, não mulher, não se trata de fazer a moral, trata-se de mostrar aos outros que as coisas, as palavras, não podem ser só da boca para fora e que se falamos de autonomia alimentar, se falamos de elevar a consciência e que se comemos carne deveremos perceber de onde vem, como se mata, a proximidade da morte e o quanto custa uma vida, sim, porque mesmo que esteja orgulhoso de ter tido a coragem de o fazer, foi a primeira vez, e mesmo sabendo que tinha que o fazer, sinto na mesma uma certa tristeza de ter acabado com uma vida e quem vive na proximidade dos animais sabe que eles também têm uma alma, que também têm um pedaço de Deus dentro de eles e que também têm direito à vida.

Convidámos por isso os meus sogros a virem cá almoçar hoje, uma espécie de homenagem a Charly o galo, no entanto, e visto que a minha mulher e o meu sogro não comem carne, ofereci-lhes bacalhau, ou como quem diz em francês, de la Morue, o Charly, esse, com os seus dois quilos e meio já limpo, foi ao forno durante quase três horas, com ervas alho e limão!

O Gabriel, esse, já me pedia há umas semanas, pai, quando é que matas o Charly, quero comer frango e quero as suas penas verdes, nada como a sinceridade cruel das crianças, mas na verdade, só o matámos porque se tinha tornado agressivo e não podemos dar-não ao luxo de ter um animal agressivo no pátio, a mandar bicadas e sem nos deixar passar, sobretudo com crianças ao pé, e foi por isso, sobretudo por isso, que o Charly à Morue!

 

Publicado originalmente no Facebook a 30 de Janeiro de 2022


2022 Decisões, Previsões, Impressões e outras Implicações

 

Tinha, na minha última crónica, escrito sobre prever o ano de 2022, o meu, não o do mundo que isso é demais para mim, mas por força das circunstâncias o trabalho foi protelado até então!

Faz por esta data uns dez anos que terminei o meu Mestrado em Artes Plásticas e meti-me na cabeça há uns meses atrás a ideia de dar uma volta na minha vida profissional e finalmente poder vir a trabalhar da arte, ( o mais próximo que estive disso foi: para além das performances enquanto Pai Natal e duende em Óbidos, o trabalho que a Isabel me tinha arranjado em Londres como técnico de manutenção e transporte  de obras de arte) no entanto, por várias e diversas razões decidi abandonar essa ideia a presente.

Porque será que alguém que investiu nisto, mais de 10 anos da sua vida, sim, contanto no mínimo com o ensino secundário, estaria agora, dez anos depois, próximo do seu objectivo, disposto a abandonar a ideia de viver da arte, depois deste tempo todo? Ora porque eu não ambiciono viver da arte, eu ambiciono viver para a arte, o que faz e é, uma grande diferença, chamem-me um romântico, um utópico ou o que quer que seja! Eu considero que a arte (a verdadeira) tem o poder de mudar as pessoas e o mundo e é nisso que eu quero investir a minha vida, se isso depois der para eu viver tanto melhor, se não azar, mas eu acredito na mudança e acredito (ainda) na humanidade, acredito que esta Terra poderia e pode ainda ser o Paraíso, que os homens têm um fundo de bondade e que transformando a mentalidade das pessoas poderemos transformar o Mundo, e que a Arte tem esse poder de mudar mentalidades. 

Esta última passagem de ano permitiu-me voltar a Lisboa, (desde antes da pandemia que não ia a uma cidade desse tamanho) e deixou-me profundamente triste ver o condicionamento e o estado de alma da maioria das pessoas que cruzei, lembro-me de estar no autocarro e ver toda essa gente entrar com as mascaras na cara e os olhos vidrados, cinzentos, cansados. Não farei, por hoje, morais quanto às politicas que têm sido tomadas para combater esta “pandemia”, mas poderia deixar aqui algumas questões logicas e obrigatórias sobre o caminho que temos seguido enquanto indivíduos e comunidade e falar sobre engenharia do consentimento, controlo de massas, etc., mas deixarei isso para uma outra vez, o que é certo é que isso também se reflete na minha realidade e levou-me a mudar a minha estratégia para este novo ano.

Decidi assim seguir uma estratégia baseada no Taoísmo e no conceito da não-acção, que significa mais ou menos que não agindo, ou parando de agir, sem forçar e deixando que o mundo e a vida sigam o seu fluxo natural, o que tiver que chegar até nós, chegará. Ora isso é mais fácil de dizer do que fazer porque vivemos constantemente na angustia do futuro, do fazer e do querer, no entanto decidi tentar abandonar esses sonhos e simplesmente deixar-me levar pela corrente. Mudei assim de objectivos, aceitei a pena do trabalho e centrei as minhas ambições na escrita do meu segundo livro, é esse, o meu único projecto palpável para 2022, tudo o resto será, como se diz na giria, o que Deus quiser!

Ora foi precisamente por causa do trabalho,  que hoje, no meio das vinhas e dos meus colegas romanos decidi e pensei esta crónica, começo a estar farto de estar rodeado de brutos, de homens que só falam e desejam guerra e violência, que veem as mulheres como objectos e que não pensam em nada mais do que a eles próprios, sem a mínima noção de sociedade ou de todo, homens que ainda mandam lixo para o chão, mas  bom, sobre eles farei a minha homenagem mais tarde, a quando de um livro que também já existe na minha cabeça, faltando somente materializa-lo mas os pensamentos voam mais rápido do que a luz e não tenho tempo para fazer tudo o que queria e gostava, mas sim, como dizia, foi, no meio disto quem meti os meus auscultadores e dei com o Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd e fui enviado directamente para o espaço, já não estava ali presente no meio das vinhas, não ouvia mais ninguém, só aquela musica psicadélica, aquele arquétipo de beleza que me enviava para lá do sistema solar, e pensava  no psicadelismo e que não é preciso drogas para viajar, o poder da mente é suficiente, na realidade, o facto de não me querer injectar uma droga experimental no corpo foi uma das razões de continuar nas vinhas, digamos que já tive o meu período de drogas experimentais, onde sabia perfeitamente o que elas me faziam ao corpo e à mente, era, de facto a mente, que eu queria aniquilar, não o corpo, em relação a esta nova droga proposta recuso e com isso aceito as consequências nomeadamente o que a ofertas de emprego e vida social diz respeito.

A minha mulher, teve hoje, e não é a primeira vez que o faz uma saída pertinente em relação a isso enquanto que eu me enervava com os miúdos por causa das birras, dizia ela: “lá vais tu fazer o filosofo para os outros quando é aqui em casa que o devias fazer, ou ser”, na realidade tem razão, mas antes de me ocupar da minha casa tenho de me ocupar de mim próprio, é lá dentro, dentro de mim que tenho primeiro que me limpar, ela sabe, foi também, uma das razões dadas para continuar neste caminho, trabalhar a paciência, a perseverança, aprender a aceitar o caminho escolhido, por mais duro que ele seja, a culpa não é de mais minguem que não de ti próprio! Entretanto estou a ficar velho e cansado, fiz 36 e parece que tenho 46, os cabelos caem, a barba fica branca, as rugas formam-se no meu rosto e a pele endurece e nada disto é obra do Sol!

O caminho traçado poderá sofrer desvios abruptos e mudanças inesperadas, mas nós estamos aí, abertos à mudança, abertos ao desconhecido, sem medos, sem receios, com alegria e amor!

Un emmerdeur!



Publicado originalmente no Facebook a 21 de Janeiro de 2022




Elias e o carro de Fogo

 

Já faz algum tempo que nada tenho escrito por aqui, certamente porque tenho muito mais que fazer na vida do que andar a escrever textos nas redes sociais, no entanto esses textos, permitem-me por vezes não só limpar a mente de algumas ideias como também (e é esse o meu primeiro objectivo) passar essas ideias ou mensagens a quem os lê, no caso de hoje, sobre algo que tenho vindo a fazer ao longo do ultimo ano, isto é, a escrita do meu primeiro livro.

Terminei então a escrita desse meu primeiro livro, intitulado “Elias e o Carro de Fogo”, um livro escrito com uma intenção inicial, que se foi moldando durante o tempo, uma espécie de um ensaio romance, um pouco de ficção e muito de auto-biográfico (não fosse a auto-análise uma das melhores terapias para vencer o ego, esse problema cronico dos artistas), mas avançando, um relato de um pai e as suas problemáticas na vida, o percurso da sua família ao longo dos nove meses de gravidez, com mudanças de casa, trabalhos, lugares, doenças e outras situações no caminho da mudança e na busca da felicidade.

Tinha como intenção primária que este livro funciona-se como um exemplo, que mesmo nestes dias obscuros que temos vindo a viver, que com esforço e dedicação podemos mudar o nosso próprio caminho e que nada poderá deter essa vontade, e que outro exemplo poderei eu dar melhor do que aquele que eu conheço melhor, o meu, tendo escrito este livro entre as cinco e as seis da manhã antes de ir para a minha rotina de trabalho ao longo deste ano de 2021, ele está pronto, finalizado, à espera somente de editora que o pegue (isso, será tratado no devido tempo, mas aceito sugestões). Nada disto é presunçoso, não quero aqui vangloriar-me, ou dizer que faço e aconteço e isto e aquilo, quero simplesmente fazer-vos saber que é possível, mostrar que se pode continuar a sonhar, que se pode mudar o rumo dos acontecimentos, com força de vontade e coragem, e com muito trabalho, como a galinha, grão a grão, dotados de uma dose infindável de paciência e benevolência para com isto tudo, como diria um outro filho de Deus (perdoai-os meu pai, porque não sabem o que fazem!).

Bom, voltando ao assunto, de salientar que o segundo livro já está programado e logo, logo, começará a ser escrito, por agora tenho outros afazeres e prioridades, mas cada coisa no seu tempo, escreverei qualquer coisa por aqui, ainda antes do fim do ano, talvez previsões para 2022, até lá ainda muita coisa vai rolar (como dizem os brasileiros), deixo-vos então, assim, com um pequeno excerto que acho particularmente bem conseguido, espero que gostem, um abraço e até já.

 

“Nunca pensei que ser pai viesse a ser isto, às vezes acabamos por nos comportar como crianças, completamente embriagados nas brincadeiras e nos risos dos nossos filhos, abraçar, dar beijinhos, mudar fraldas e morder as bochechinhas e as perninhas e rir como um idiota com o seu sorriso, dar-lhes banho, amor e a papinha à boca, e não dormir noites e noites, ouvir chorar e mais chorar, ficar com os nervos à flor da pele, desesperar e embalar e transportar a eles e a mais vinte mil coisas às costas, sacos e carrinhos de bebé, roupas, brinquedos, tralhas e começar a ver os primeiros passos e correr atrás, dobrado para servir de apoio ao caso de se desequilibrar e ter medo, muito medo, medo que caia, medo que se aleije, medo que sofra, porque nós sofremos também, medo que se engasgue, medo que morra, porque qualquer acidente com as crianças pode ser fatal, e se ele morrer, nós morremos com ele e todo o nosso sonho é destruído, mas mesmo assim vamos continuando, enfrentando esses medos de dia para dia porque não temos outra escolha a não ser fugir, mas se fugires já não és pai, e onde anda o amor e a doçura? Onde anda a poesia? E agora já anda, já corre, já salta, já fala, já grita e canta, já vai à escola e o tempo passa, mas os seus olhos continuam a brilhar alegria e inocência e tu só o queres proteger, que ele continue assim, que ele não perca essa alegria e essa inocência própria das crianças, esse olhar, que ele não sofra o que tu sofreste enquanto cresceste e enfrentas-te a vida, que dói, e os desgostos de amor e as amizades e a escola e as lutas e o trabalho e as frustrações próprias da vida, e todas essas coisas que vão construindo em ti um muro de betão, de resistências e medos face à vida e aos outros, mas não há volta a dar, tens que os enfrentar, és obrigado a fazer cair o muro que te separa dos teus sentimentos e emoções e aproveitar ao máximo cada segundo da vida, cada momento que tens com ele, mesmo quando chegas a casa derreado do trabalho e só queres dormir e descansar e ele vem e não te deixa, salta-te em cima e se não aproveitares agora, aproveitarás quando? Quando ele for mais velho e partir? Sim porque um dia todos partem, quando ele já não quiser brincar com o seu pai? Quando o relógio do tempo indicar as horas da velhice e ele já não for o menino pequenino que é, quando viver numa outra casa quem sabe, quando ele já não estiver lá, quando ele já não estiver aqui, poderei eu olhar para trás e dizer que fiz tudo o que podia por ele? Por nós? Por mim? Tentarei.”



Publicado originalmente no Facebook a 3 de Dezembro de 2021







Galinhas, Vindimas e Realização de Sonhos

 

Um grupo de jovens italianos vindo a maioria deles de Nápoles atravessaram a Itália até Livorno onde apanharam o barco para Bastia, na Córsega, atravessando depois a ilha para virem vindimar uma semana connosco.

Um grupo bastante heterogéneo de rapazes e raparigas, todos eles na casa dos vintes, estudantes das mais variadas áreas desde Antropologia a Astrofísica, traziam com eles não só um bom espirito e uma boa atitude como também os olhos carregados de sonhos e a força de mudança própria da juventude.

Trouxeram também com eles a minha memoria, neles revivi os meus tempos de estudante e as semanas de Verão a apanhar Pera Rocha no Oeste de Portugal, ao Sol com os amigos, todos nós ainda cheios de juventude de sonhos e de ideais. No entanto, e o mais importante nestes tempos absurdos, foi que foram capazes de me trazer um pouco mais de esperança na humanidade e a oportunidade de ver que a juventude ainda alimenta sonhos e ideais, cheios de gente boa de alma e de coragem.

Apesar de nestes tempos de redes sociais toda a gente querer mostrar sempre a sua felicidade e coisas boas, ninguém se iluda de que a vida dos outros é fácil e bonita enquanto que a sua não o é, isso, são armadilhas comunicacionais as quais teremos que saber ler e distinguir, mas que mesmo no meio das adversidades do dia a dia, do bébé que não dorme, da dureza física do trabalho, da rotina, da mulher cansada, da falta de sono e de repouso constante a vida é para ser encarada de frente e assumir as escolhas que se faz, sem medos e sem receios.

Ao olhar os meus amigos italianos e as escolhas que fiz ou deveria ter feito quanto tinha a idade deles penso na ignorância e cegueira da qual era vitima e culpado, passando mais tempo a beber copos e fazer a festa do que a preparar o futuro e a saúde, desconhecendo as consequências de tais actos, no entanto, acabei por ser abençoado e ter tido, mesmo que tarde, tempo de ganhar consciência da sorte que tenho, de nada me arrependo pois tudo isso me levou onde estou hoje, e se não fossem essas escolhas nunca teria vindo aterrar nesta ilha nem conhecido a Camille!

Os sonhos esses, são e serão sempre para realizar e enquanto que alguns existem já no universo e esperam a sua hora para se materializar outro vão-se materializando à força do trabalho e das escolhas no caminho da vida. Na lista estão a quinta, as arvores de frutos, as galinhas, os livros a escrever e a ser escritos, as pinturas a fazer, as musicas a compor, as crianças a fazer crescer, a companhia da Camille, os peixes a pescar, os novos sítios a visitar, e muitos mais, e nada, nada que possa vir de ordens extraterrestres poderá parar este ciclo.

Nestes tempos obscuros o combate será feito através da luz e da realização dos sonhos, assim como os meus amigos italianos, assim como a juventude que querem oprimir, a engrenagem está em marcha, a flecha foi lançada e nada, mas nada mesmo a poderá parar, sem medos, com coragem, para a frente, para a mudança do mundo, para a mudança de paradigma, pela juventude nova do mundo que à de vir, eu percebi, que como à 15 anos atrás, a minha juventude e os meus sonhos ainda vivem dentro de mim, espero que os teus também!



Publicado originalmente no Facebook a 29 de Agosto de 2021



O meu Irmão Tiago

 

"Segui o meu irmão até ao coração da Amazónia. Ele teve a coragem de subir o rio e de mergulhar nele, foi ver os índios e abraçar a tribo, foi abraçar as profundezas da floresta, como fénix foi às profundezas de si mesmo queimar, morrer, renascer e redescobrir-se! "

Ao contrário do meu irmão não precisei de ir à  floresta ver os índios,  eles estão dentro de mim, assim como o meu irmão está,  a minha viagem tem sido outra, e os índios e os seus espíritos apresentaram-se a mim de outras maneiras, no entanto tenho seguido o meu irmão em muitas outras coisas, na sua coragem e força de estar,  na sua rebeldia, e mesmo no acto de deixar crescer os cabelos de novo (já lá vão uns 15 anos), ele talvez, tem-me tentado seguir a mim em outras coisas, não sei... sei que somos irmãos de sangue e de alma e que podemos estar anos sem nos ver-mos, que dentro de nós sabemos se tudo vai bem ou mal!

Assim como o meu irmão Tiago,  também eu estou na resistência e a preserverança e a força de vontade estão connosco,  e a verdade está connosco, e a justiça está connosco, e o amor está connosco, e os índios mesmo que perseguidos, chacinados, expropriados e vilaniados estão connosco e nós com eles e com todos aqueles aí e por este mundo fora têm sofrido as correntes da repressão,  com os povos africanos, os escravos, os ainda hoje colonizados, com os palestinianos expoliados,  guettizados, com os tibetanos, as minorias, os curdos, os tchetchenos, os ciganos, os imigrantes, eu sou, eu, do alto da minha Europa, do alto desta República Macroniana Francesa estou com eles, do alto deste Apartheid estou com eles,  e estarei sempre!

Somos todos iguais, todos homens, todos seres começa a estar na hora de todos compreendermos que somos todos diferentes e todos iguais e que nenhum homem é  superior a um outro, começa começa a estar na hora de cada um compreender que não há outro lado que não a Mãe Terra!

Saudações a todos e um grande abraço

Haux Haux


Publicado originalmente no Facebook a 24 de Maio de 2021