quinta-feira, 27 de agosto de 2026

NOTA DO AUTOR - Os Três Romenos

 


Esta nota visa esclarecer o leitor sobre as decisões que me levaram a editar através da plataforma online Bookmundo.

Por volta de 2022, quando escrevi o meu primeiro projecto (até à data não publicado e que dá, por enquanto, pelo nome de “Elias e o  Carro de Fogo”, uma espécie de uma mistura entre livro de viagem e autoficção) mergulhei, em apneia, no mundo editorial português.

Foi-me preciso um pouco de tempo para perceber e descobrir o funcionamento mínimo desse meio aquático onde a fauna, mesmo que numerosa é, em grande parte, idêntica, dividindo-se basicamente em três grandes famílias: as grandes editoras, as “vanitys press” e as pequenas editoras independentes. Sem necessidade de entrar em grandes detalhes sobre as orgânicas do meio editorial português que não difere muito do funcionamento de qualquer outro ecosistema cultural e artístico nacional abreviarei da seguinte maneira: numa grande editora não se entra assim do pé para a mão, ou se tem a sorte de ganhar um concurso literário, ou se fez estudos em literatura e se é mesmo muito bom, ou conhece-se este ou aquele e pronto, está feito (a esse sujeito a editora Relógio de Água tem no seu site um bom artigo). Segundo grupo: as “vanitys press” são editoras em que o escritor ou pretendente a, paga (e bem) para publicar o seu livro, daí o termo vanity de vaidade, alimentando-se do desejo, do ego, presumo também que, às vezes da ingenuidade de quem escreve e sonha em publicar um livro. O autor tem, nestes casos, de avançar com a compra de um certo número de originais ou pagar os custos associados ao serviço de impressão, por exemplo. Depois, as editoras independentes, estruturas pequenas, às vezes mesmo monoestruturas. Neste grupo existem basicamente dois tipos de editoras: aquelas que publicam novos autores portugueses e aquelas que constroem um catálogo, eclético e à imagem do seu editor, em grande parte a partir de livros traduzidos, uma espécie de curadoria do livro compondo assim uma proposta ideológica particular, de dizer que estas editoras normalmente autogerem-se e que é praticamente impossível viver dessa actividade tendo os editores outras fontes de rendimento.

Entre o tempo que levei a tentar compreender e descobrir todo este Universo e o tempo de não encontrar quem me editasse “Elias e o Carro de Fogo” passaram-se quase dois anos e foi precisamente durante esse tempo que decidi e iniciei a escrita daquilo que considero o meu primeiro verdadeiro romance. De realçar que tive, no entanto, algum retorno sobre o meu primeiro manscrito (tenho de o dizer em defesa de algumas destas pequenas editoras que contactei): uma disse-me que escrevia bem mas que o conteúdo não era o que eles procuravam, queria ver novas coisas, outras agradeceram, orçamentos curtos, fazer escolhas, etc. tendo tido também a sorte de ter recebido uma critica bastante constructiva da parte de um desses editores apontando-me problemas e concelhos à minha escrita, que me levaram a reflectir sobre o caminho a seguir.

A primeira versão de “Os três Romenos” foi terminada em meados de 2024, à partida abandonara toda e qualquer tentativa de procurar uma editora que o publicasse participando, no entanto e sem sucesso em dois ou três concursos literários. Durante esses tempos de espera estudei também as possibilidades da auto-edição, mas, dada a distância a que me encontro da terra e lingua mãe (o que aumenta exponencialmente os custos de impressão e distribuição do número ridículo de exemplares que possa vir a vender com isto) abandonei a ideia e foi aí que descobri a plataforma Bookmundo e a alternativa (com estas novas tecnologias) do print-on-demand (impressão à encomenda), recuso a Amazon por uma questão de princípios. Na plataforma aprendi a paginar o meu livro, criei a minha capa, projetei o meu preço, podia fazer a minha página de venda e ter o livro disponível na internet para quem o quisesse comprar e já tinha tudo quase pronto para o publicar quando na sequência de um desses concursos acabei por ter uma resposta de uma pequena editora com quem entrei em contacto e deixei a Bookmundo em “stand-by”. Não tinha sido selecionado porque o meu manuscrito era muito grande, mas depois de alguma insistência da minha parte, de ter revisitado, revisto e reduzido o livro tive a oportunidade de assinar um contrato para a sua edição.

As coisas, não são, no entanto, como nós desejamos e no meio disto tudo houve pedidos para a alteração do titulo do livro, objectivos de pré-venda impostos, tempos de espera enormes sem retorno e sem avisos ou opiniões sobre o manuscrito e uma capa horrível à qual a minha imagem ficaria para sempre associada. Isto obrigou-me a repensar o que realmente queria levando-me a romper (com custos, evidentemente) o contrato anteriormente assinado.  Arrependi-me das decisões anteriormente tomadas e de forçar algo que não era para mim. Talvez tenha ainda de aprender a largar, a deixar passar, a continuar a seguir e a sentir os meus instintos. 

O que queria eu afinal, ou, o que quero eu com os meus livros enfim? Importa-me assim tanto ser publicado “oficialmente” por um editor, ter livros nas pequenas livrarias independentes de Portugal, ser reconhecido pelos meus, pela sociedade cultural do burgo, sucesso, alimentação do ego, status-quo? Para vender meia dúzia de livros a alguns amigos não preciso de tanto. Não! Para vender meia dúzia de livros não preciso de tanto.

A mim, o que me interessa é o objecto em si, a obra de arte no seu todo, não me faz sentido criar um objecto que não tenha a linguagem ou represente verdadeiramente aquilo que eu quero transmitir e que não se enquadre no meu discurso artístico nem no meu Universo e de todas as editoras que descobri não existem muitas com esse perfil, talvez também não estejam interessadas e foi por isso que me voltou esta ideia de publicar através da Bookmundo.

Para este fim criei as Edições do Pó, anagrama das minhas iniciais e micro/auto editora que me relembra do estado de onde vim e para onde irei, cabendo-me assim, a mim, a difícil tarefa de tomar todas as decisões editoriais relativas aos meus projectos escritos (como neste caso em particular por exemplo: voltando a acrescentar ao livro a introdução de cada um dos três romenos), mas, sobretudo, permitindo-me compilar e uniformizar graficamente todo o meu trabalho, bandas desenhadas, livros de artistas, romances, poemas, etc, dentro de uma única linha gráfica e editorial, disponível através da plataforma e do meu site e onde, o primeiro livro publicado é precisamente este.

 

 O Livro està disponivel no link:

 Os Três Romenos - Oliveira Pedro

Oliveira Pedro, 2026

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
Emma – Obituarium – estimada entre fim de 2011 inicio de 2012 – 2026

 O hálito estava podre, de um podre fétido como a água de um pântano, um aquário que nunca fora lavado. Tinha os dentes todos podres, os que ainda tinha e o bálsamo, o vapor que emanava da sua boca enojava-me e empestava a casa. As patas traseiras já não funcionavam, arrastava a pata esquerda como um peso morto, um pau, uma bengala disfuncional enquanto saía para o quintal na tentativa de se aliviar, mijar ou defecar, muitas das vezes ficando com as patas e o pêlo suja da sua própria decrepitude. Já não conseguia subir sozinha o pequeno degrau que dava acesso ao terraço. Pouco comia, beber idem. Estava velha, velhíssima, à espera da morte e nós com ela. Sete vezes quatorze noventa e oito, cem anos tinha a minha velha Bibi em anos de gente! Não dava mais! Ontem, uma bolha de pus esgravatou-lhe o rosto, o veterinário disse que foi um abcesso numa raiz de um dos poucos dentes que ainda tinha quando a Camille a levou, evidentemente perturbada para a picada final que pararia o sopro, o bater lento e irregular do seu velho coração, afinal, os cães também têm um, muitos deles, maiores que o de muitos homens.

A Emma, a minha velha rafeira por acréscimo e adpoção foi encontrada na rua, nunca percebi bem os detalhes que a levaram da rua ao canil, do canil à minha sogra e da minha sogra à minha mulher, mas sei que foi lá pelo Verão de 2012 que ela efectivamente a adoptou! Eu, cheguei a esta história três anos depois e a princesa que andava à pendura no carro da Camille começou a perder espaço. De pendura para o banco de trás, da cama para o sofá, com a chegada do Gabriel, ainda menos espaço, um cestinho no chão, depois veio o Elias e depois ainda o Marius e no meio disto tudo a primeira tornou-se a ultima da lista, perdeu mordomias e saiu por força das circunstâncias da lista de prioridades.

Mesmo se tivesse toques de labrador e border collie tinha pânico à água, aos trovões, aos relâmpagos, aos tiros (não faltam na Córsega) e tudo o que seja barulhos de explosões no geral, traumas, foi atacada por um pitbull, numa fatídica véspera de Natal perdeu um olho (não vale a pena entrar aqui em detalhes de como foi), mas no meio disto tudo e tirando estes longos meses finais, acho que teve uma vida de cão bastante feliz! Passeava todos os dias, horas de caminhadas na praia, na floresta, a correr com o Faro (o cão dos meus sogros) enquanto este foi vivo, livre e sem trela, a comer sempre Pedigree, e a roer ossos e a cheirar por todo o lado, a caçar ratos e lagartixas, e a receber festas e mais festas e mais festinhas. Ah, a minha Bibi! Morreu!

Enterrámo-la ontem, no dia da sua morte, o onze do seis, não escondemos dos miúdos, faz parte da vida, pegámos neles depois da escola, ela jazia no carro e fomos para a floresta onde ela amava passear e subir aos velhos muros de pedra, trouxe uma pá, e cada um, um presente, uma pequena lembrança para a sua tomba.

Deitei a minha lágrima, talvez chore mais por um cão do que por um homem, talvez sejam assim os homens, sensibilidades estranhas, fez-me pena, remorsos, talvez lhe pudesse ter dado mais, tratado melhor, feito mais atenção, talvez, talvez, talvez, agora é tarde, já foi! Ficou um vazio nesta casa, tudo é água, tudo é passageiro, tudo vai, nada fica, só ficamos nós, com nós mesmos.

É a morte, temos que estar preparados para ela pois é a única certeza que temos nesta vida.

Repose en paix ma chienne