sexta-feira, 12 de junho de 2026

 
Emma – Obituarium – estimada entre fim de 2011 inicio de 2012 – 2026

 O hálito estava podre, de um podre fétido como a água de um pântano, um aquário que nunca fora lavado. Tinha os dentes todos podres, os que ainda tinha e o bálsamo, o vapor que emanava da sua boca enojava-me e empestava a casa. As patas traseiras já não funcionavam, arrastava a pata esquerda como um peso morto, um pau, uma bengala disfuncional enquanto saía para o quintal na tentativa de se aliviar, mijar ou defecar, muitas das vezes ficando com as patas e o pêlo suja da sua própria decrepitude. Já não conseguia subir sozinha o pequeno degrau que dava acesso ao terraço. Pouco comia, beber idem. Estava velha, velhíssima, à espera da morte e nós com ela. Sete vezes quatorze noventa e oito, cem anos tinha a minha velha Bibi em anos de gente! Não dava mais! Ontem, uma bolha de pus esgravatou-lhe o rosto, o veterinário disse que foi um abcesso numa raiz de um dos poucos dentes que ainda tinha quando a Camille a levou, evidentemente perturbada para a picada final que pararia o sopro, o bater lento e irregular do seu velho coração, afinal, os cães também têm um, muitos deles, maiores que o de muitos homens.

A Emma, a minha velha rafeira por acréscimo e adpoção foi encontrada na rua, nunca percebi bem os detalhes que a levaram da rua ao canil, do canil à minha sogra e da minha sogra à minha mulher, mas sei que foi lá pelo Verão de 2012 que ela efectivamente a adoptou! Eu, cheguei a esta história três anos depois e a princesa que andava à pendura no carro da Camille começou a perder espaço. De pendura para o banco de trás, da cama para o sofá, com a chegada do Gabriel, ainda menos espaço, um cestinho no chão, depois veio o Elias e depois ainda o Marius e no meio disto tudo a primeira tornou-se a ultima da lista, perdeu mordomias e saiu por força das circunstâncias da lista de prioridades.

Mesmo se tivesse toques de labrador e border collie tinha pânico à água, aos trovões, aos relâmpagos, aos tiros (não faltam na Córsega) e tudo o que seja barulhos de explosões no geral, traumas, foi atacada por um pitbull, numa fatídica véspera de Natal perdeu um olho (não vale a pena entrar aqui em detalhes de como foi), mas no meio disto tudo e tirando estes longos meses finais, acho que teve uma vida de cão bastante feliz! Passeava todos os dias, horas de caminhadas na praia, na floresta, a correr com o Faro (o cão dos meus sogros) enquanto este foi vivo, livre e sem trela, a comer sempre Pedigree, e a roer ossos e a cheirar por todo o lado, a caçar ratos e lagartixas, e a receber festas e mais festas e mais festinhas. Ah, a minha Bibi! Morreu!

Enterrámo-la ontem, no dia da sua morte, o onze do seis, não escondemos dos miúdos, faz parte da vida, pegámos neles depois da escola, ela jazia no carro e fomos para a floresta onde ela amava passear e subir aos velhos muros de pedra, trouxe uma pá, e cada um, um presente, uma pequena lembrança para a sua tomba.

Deitei a minha lágrima, talvez chore mais por um cão do que por um homem, talvez sejam assim os homens, sensibilidades estranhas, fez-me pena, remorsos, talvez lhe pudesse ter dado mais, tratado melhor, feito mais atenção, talvez, talvez, talvez, agora é tarde, já foi! Ficou um vazio nesta casa, tudo é água, tudo é passageiro, tudo vai, nada fica, só ficamos nós, com nós mesmos.

É a morte, temos que estar preparados para ela pois é a única certeza que temos nesta vida.

Repose en paix ma chienne


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