domingo, 31 de julho de 2022

O Homem e o Pão

Aquele dia seria um dia importante, era um dia importante, a minha mãe tinha-me incumbido de ir comprar pão, pela primeira vez iria sozinho comprar o pão, sozinho não, o meu irmão, um ano mais novo iria comigo, tínhamos na altura uns cinco ou seis anos de idade, se não me engano, talvez uns sete, já não sei bem, que isto da memória às vezes falha, não importa, o que importa é que a minha mãe, tinha-me dado uma nota de dois mil escudos, daquelas azuis com uma caravela desenhada, que eu tinha dobrada, guardada no punho da mão, e tinha-nos dado a missão de ir lá a baixo à loja, comprar umas bolinhas, dando assim mais um passo em direcção, nesta tarefa que é a maternidade e a educação das crianças, a um pouco mais de responsabilidade de autonomia e de crescimento.

Descemos no elevador, saímos do prédio, e fomos até ao centro comercial que se encontra logo ali ao lado, um daqueles centros comerciais antigos, dos anos oitenta, da idade do bairro. Na altura, aquele centro comercial era ainda bastante habitado, era um local de encontro de famílias e vizinhos, e providenciava toda uma serie de serviços que viriam a extinguir-se aos poucos, à medidas que os anos iam passando e que os shoppings foram crescendo como cogumelos na área da grande Lisboa, mas, por aquela altura era, como disse, um centro bastante movimentado, havia, à entrada, do lado do prédio onde eu habitava uma churrascaria, logo depois uma pequena rampa ladeava a parede do centro ate chegar a uma plataforma onde tínhamos acesso à esplanada do café, e à entrada principal feita de duas grandes portas vidradas.

Lá dentro, para além destes dois pontos alimentares que duram ainda e resistentes até aos dias de hoje, encontrávamos por aquela altura começando pelo segundo andar: o vídeo clube, onde alugávamos as nossas cassetes das tartarugas ninja, o cabeleireiro da Bela e da Lela, ou Lola, já não sei, na altura do Sr. Machado, careca por sinal, onde a minha mãe nos fazia rasar a cabeça. Havia também uma lavandaria e um cafezito, mais tarde encontrava-me lá com a malta, lugar de preferência para beber umas jolas e fumar uns cigarros, um terraçozito ao segundo andar por baixo dos plátanos do estacionamento, munido de uma mesa de matraquilhos e o jornal desportivo do dia. Em baixo, ao rés-do-chão e logo à entrada a loja do Sr. do Gaz, que vendia as botijas de gaz Galp para os fogões, o talho, o café, a churrasqueira, a drogaria do Pracash, se não me engano, um Sr. de origem paquistanesa que sempre lá esteve, nos seus quatro metros quadrados e que vendia de tudo, lembro-me, no entanto, de ir lá comprar pilhas, atacadores e aquelas cassetes amarelas para a family game, a nossa consola da época que joguei até à exaustão, até chegar a Playstation. Lembro-me que o centro chegou também por uns tempos a ter uma peixaria, uma papelaria, uma loja de street-wear, de uns irmãos gémeos que viveram por lá uns tempos e que vendia skates e latas de spray para graffitis quando era moda, lá para o inicio dos anos dois mil. Chegou mesmo a haver, também, um pronto a vestir, mas, nada disso interessa para esta história, onde o que interessa era o ponto onde se vendia o pão, o minimercado ao interior do centro, também ele detido por um Sr. Paquistanês, o pai do Américo, um rapaz que não jogava nada bem à bola, mas que de vez em quando brincava connosco, ou seria Pracash o Sr. do minimercado e o Sr. da drogaria o pai do Américo, já não me lembro, são partidas da memória, no entanto, onde a memória não me falha é então, nessa tal ida ao pão.

Depois de me ter dado as bolinhas de pão num saco de plástico, esse Sr., o dono do minimercado, pousou atenciosamente como quem conhece os seus clientes habituais, as notas, e as moedas do troco na minha mão, para me ensinar e mostrar as contas, ainda hoje tenho na memória vir a andar no passeio, de volta a casa com o meu irmão ao lado e o troco na mão, a nota de mil e a nota quinhentos escudos mais as moedas na mão, e vir a fazer um esforço para segurar bem esse precioso troco, e a ideia de reentrar em casa com o sentido de missão cumprida, mostrando assim, orgulhosamente à minha mãe o como era grande e responsável.

Subimos a rampa que dá acesso ao prédio, entramos no prédio e no elevador, a porta estava mesmo a fechar-se quando de repente voltou a abrir-se, uma mão gigante veio de cima, descendo violentamente e agarrando-me as notas, vi um homem voltar-se e sair pela porta do prédio a correr enquanto a porta do elevador se fechava à minha frente. Chorei até ao nono andar!






terça-feira, 10 de maio de 2022

10 anos de escravidão e o Paulo Coelho

 Existe um livro também transformado em filme, escrito por um afro-americano que narra a sua experiencia enquanto escravo, ele conta como a sua vida de cidadão livre lhe foi arrancada no norte dos Estados Unidos para ser transportado e feito escravo nos Estados do Sul, nas plantações de algodão, isso durou 12 anos, até poder finalmente conseguir (no caso desta historia) se libertar.

Ora não poderei nunca fazer paralelismos sobre a escravidão a que foram e são ainda hoje submetidos os meus irmãos negros mas posso sim fazer um paralelismo entre esclavagismo (trabalhar à força, sem ser pago e sabendo que se recusarmos a sentença é a morte) com neo-esclavagismo (que é o que vivemos hoje em dia devido à estrutura híper-capitalista em que a nossa sociedade se encontra, trabalhar, ser mal pago, muitas vezes mal tratado e sobe pressão, e assedio moral, para poder pagar o mínimo necessário à sobrevivência) poderia aqui fazer uma dissertação sobre isso, condições de trabalho, dependência económica de todas as necessidades básicas do ser humano, alimentar, habitacional, etc, mas não é o caso, deixo isso ao critério de cada um, mas sabendo que se recusarmos jogar esse jogo a sentença é a marginalização, o que para Sócrates  vai dar à mesma coisa que a morte!

Posso também fazer um paralelismo entre esses 12 anos de Solomon Northup e os meus últimos 10 anos. Durante esse tempo vi a minha vida de “cidadão Livre” me ser “retirada”, os sonhos prometidos pelo sistema de ensino e pela universidade foram todos pelo cano abaixo, acompanhados de uma grande dose de papel higiénico e empurrados pela força da água ao primeiro puxão do autoclismo. Durante estes últimos 10 anos que separam a data de hoje ao fim do meu mestrado (onde por curiosidade um dos júris de tese afirmou que comigo seria o tudo ou nada) o nada (a nível profissional) foi prevalecendo até ao inicio deste mês de Maio. Foi, assim, que neste inicio do mês de Maio, tento, com ajuda da minha família e do Universo reaver a minha Liberdade. Tinha precisamente em Janeiro escrito um texto onde abordava um pouco este sujeito, no entanto o Mundo da muitas voltas e dei por mim com duas crianças em casa a mandar o trabalho às ortigas, já não dá mais para participar nisto, já não dá mais para alimentar esta gente, este sistema, esta loucura, está na hora de mudar e se não se conseguir, ao menos que morra com a consciência tranquila de ter tentado, sim, tentar então viver para a arte e por consequente da arte, viver para a transformação de um mundo melhor, construir sonhos e tentar a meu jeito ajudar nesta transformação tao necessária e inevitável.

E isto leva-me então até ao segundo ponto, a Paulo Coelho e à busca da minha lenda pessoal. Na realidade tive contacto com os livros de Paulo Coelho à muito pouco tempo atrás, não sei porquê mas sempre tive a ideia que havia uma espécie de recusa da esquerda às ideias e aos livros de Paulo Coelho, provavelmente ligada ao esoterismo ou teor vamos chamar-lhe religioso que compõe grande parte das suas obras e isso levou-me por ideologia a nunca o ter descoberto, no entanto posso afirmar sem receios que foi o mais impressionante e mais forte que li nos últimos tempos, a par de Bernard Werber (ler as Formigas e a Borboleta das estrelas), papei quase uma dezena de livros dele o ano passado, e obviamente o incontornável Alquimista.

Ora a grande ideia por detrás de Paulo Coelho tem a ver com a ideia de que cada um de nós tem a sua lenda pessoal para viver, uma espécie de propósito de vida, de objectivo de realização supremo e que nos cabe a tarefa de o alcançar, e isto leva-me ao meu estado, aos desejos e sonhos que tive e alimentei durante toda a minha vida, que flui no meu subconsciente, à intuição e ao sentir dentro de mim mesmo aquilo que posso vir a ser, aquilo que sou capaz de fazer e à coragem que é necessária para quebrar os paradigmas que te prendem, esses sim as verdadeiras correntes da tua escravidão.

Foi então neste sentido que tentei de forma amigável meter fim ao contrato de trabalho que me ligava a uma empresa de produção de vinho, (essa kármica beberagem que muito contribuiu ao meu envelhecimento e destruição precoce) coisa que não foi aceite muito amigavelmente pela gestão da empresa, no entanto as decisões estão tomadas, o caminho é para a frente e o que vier veio, que eu tenho uma lenda pessoal para viver e filhos para criar, sem medo não, que o medo existe, mas ele existe para ser superado e vencido. A liberdade está dentro da nossa própria cabeça e nós somos os criadores da nossa própria realidade, podemos fazer deste mundo e da nossa vida um paraíso ou um inferno, cabe-nos de escolher.

Terminando num tom de psicadelismo para acompanhar a imagem de progresso e futuro e citando um certo contemporâneo de Paulo Coelho:

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”



sábado, 2 de abril de 2022

Papoilas

Cada vez que vejo papoilas que penso em ti, que me vem à memória, à lembrança, aqueles tempos em que pelos caminhos que levavam ao rio e à queda de água passeávamos e apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças. 

A nossa casa dava sobre um cruzamento para a estrada principal, era uma casa antiga composta de dois andares, num primeiro andar o apartamento, ao rés da estrada tínhamos a garagem, um antigo estaleiro de carroças da altura em que os carros ainda não existiam e o comboio era rei. Quando saiamos, descíamos pelas escadas exteriores que davam directamente sobre a estrada, do outro lado havia um parque de estacionamento e a antiga estação de comboios agora transformada em escola primária, e depois o rio, o rio atravessava tudo, vinha da direita, passava por debaixo da ponte que fazia a ligação entre a estrada onde vivíamos e a povoação e continuava para baixo, por detrás do parque, da escola, e descia ate à grande cascata que caia a pique, que fazia o nome da terra e que atraia turistas de todos os lados. Naquele verão, a azafama que pairava naquele cruzamento antes da ponte e naquele parque de estacionamento era de tal ordem que a mim só me apetecia fugir, ou ficar fechado em casa de janelas fechadas, ouvidos e olhos tapados à espera que o tempo e o barulho das buzinas e das motas passassem e nós, no meio disto que só queríamos viver descansados no campo, no meio das árvores e do silêncio. A casa tremia com o passar dos camiões ainda antes das seis da manhã e o barulho só terminava à hora que o sol se punha. 

Saia contigo de manhã, tentava faze-lo cedo, quando ainda não havia ninguém na rua, a passear, levávamos a Emma connosco, descia as escadas com ela pela trela e tu pelo braço, com paciência poderia deixar-te descer sozinho,  às vezes acontecia, mas àquela hora da manhã já estava enervado, andava sempre enervado, sempre com pressa que fizéssemos a nossa volta sem sobressaltos, primeiro, descer as escadas, depois, atravessar para o outro lado da rua, depois, atravessar o parque de estacionamento e a escola e depois sim, relaxar um bocadinho enquanto caminhávamos de mão dada ao longo do rio. Aí, largava a cadela da trela mas sabes como ela é, uma vadia que não ouve ninguém, não quer saber, só quer é vadiar e cheirar por aqui e por ali, e lá ia ela, bem mais à frente, abandonando-nos e deixando-me sempre no meio termo entre a velocidade de cão e a velocidade de caracol, de um pequeno menino de pouco mais de ano e meio que só queria brincar e descobrir o mundo e eu já enervado, anda Gabriel, anda que o pai tem que ver onde é que anda a Emma, anda, que vem lá alguém com um cão, e tu sempre de arrasto que eu ainda tinha na memória a historia do pitbull, e cada vez que a saiamos que eu vivia stressado com essa história e com medo de encontrar outros cães pelo caminho, e que ela se fizesse atacar e isto e aquilo e tentava despachar os nossos passeios o mais depressa possível, para poder voltar para dentro de casa onde o stress  e o medo deixavam de existir. 

Mas nem sempre foi assim, na maioria das vezes guardamos na memória os traumas que nos percorrem e sofremos com o passado esquecendo os bons momentos que passámos, ao prolongarmos o caminho à beira rio parávamos sempre numa pequena clareira no meio dos pinheiros, mais afastada da estrada e do percurso pedestre principal, ai, não havia ninguém e ficávamos por lá, a brincar com as fagulhas dos pinheiros ou a desenhar com paus no chão, do outro lado do cruzamento havia igualmente uma clareira, enorme, cheia de erva, de malmequeres e margaridas e passávamos horas a ver as borboletas azuis que por lá dançavam, mas o que tu mais gostavas era das papoilas, as bordas ao longo de todo o caminho pedestre que descia para a cascada estavam carregadas de papoilas, e tu adoravas apanhá-las, uma para ti, uma para mim, uma para a mãe.

Ontem de manhã ao chegar ao trabalho vi as primeiras papoilas da estação, e fiquei assim, a pensar em ti, o dia todo a pensar em ti, elas eram e são como tu, assim tão belas e tão frágeis que assim que as arrancamos da terra que as suas pétalas caem, e eu, sempre na minha brutalidade sem tacto para cuidar, tento fazer o melhor que posso e lembrei-me desses tempos, desses tempos em que apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

1984, o Aviador Ucraniano e as Teorias da Constipação

 

Muito tenho vindo a pensar sobre as cada vez maiores semelhanças entre a distopia de Orwell e a realidade que vivemos, no entanto, e antes de vos contar a história do aviador ucraniano gostaria de fazer um paralelo sobre uma passagem de 1984 que me ficou na memoria (a reler) e o presente momento em que vivemos. Ora se bem me lembro, e não querendo cair em erro, havia uma cena, ou uma ideia, em que a ração de chocolate é reduzida de um dia para o outro, e as pessoas nesse mesmo dia já nem se lembram que a ração de chocolate era superior no dia anterior, e que todo este tipo de medidas eram sempre tomadas pela segurança da população e do estado, ao mesmo tempo existem na história três potências mundiais que estariam constantemente em guerra (sempre guerra nas fronteiras e pelo que me lembro, acordadas entre eles) reduzindo de mais em mais as liberdades e direitos das pessoas, do povo (nota que este livro é também o livro onde o conceito de Big Brother é inventado, o Grande Irmão, que vê tudo e sabe tudo, de onde deriva esse magnífico programa de televisão) no entanto, e citando João Bernardo na contracapa da minha versão de 1984 publicado pela Antígona: “ Curioso percurso, o desta alegoria inventada para criticar o stalinismo e invocada ao longo de décadas pelos ideólogos democráticos, e que oferece agora uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização  em que passaram a assentar as democracias capitalistas.”

No entanto, o que é que tudo isto tem a ver com o aviador ucraniano, tem a ver que fruto da companhia diária dos meus amigos romenos, obviamente e por várias e distintas razões como por exemplo a simples geografia, estão bastante mais interessados do que eu nesta história da Rússia e da Ucrânia, e vim, como dizia, a saber desta história de um aviador da força aérea ucraniana, que quando foram dadas as ordens de pegar no avião e ir para a guerra ele virou a sul e foi de jacto aterrar na Roménia, em Bacau, de onde é um dos meus colegas, fugindo assim da guerra, desertando e era precisamente neste ponto que eu queria pegar.

Se, e digo se, todos os militares russos se recusassem a combater e a responder a ordens de malucos, pura e simplesmente não haveria guerra, o mesmo vai para os militares ucranianos e para todos os militares do mundo, se não houvessem militares para executar ordens como poderia haver guerras destas? Se o presidente da república ou o teu patrão te mandar saltar duma ponte tu tens sempre a escolha de recusar, obviamente que podes ter que arcar com as consequências dessa recusa, mas se aqueles que forem aplicar as sanções a essa recusa, se recusarem também eles de sancionar, percebe-se onde quero chegar? E se o policia se recusar a servir a autoridade e trabalhar para um governo corrupto e aceitar servir o povo que se manifesta? Nada é mais do que uma questão de escolha individual, ganhando a consciência de que todos somos um e que todos somos irmãos a recusa de matar ou de agredir torna-se evidente, mas, é logico que é preciso ganhar essa consciência e a coragem de o fazer. Se o aviador ucraniano ganhou essa consciência ou não, eu não sei, mas sei que pelo menos ganhou medo pela vida e consciência que seria ridículo morrer por cumprir ordens de tolos muito confortáveis nos seus cadeirões de couro a fumar os seus charutos cubanos.

Tu, eu, nós, todos temos o poder da escolha, o poder de aceitar ou não cumprir ordens, e o mesmo vai para a loucura do Covid, para as escolhas politicas, alimentares e de consumo geral, por exemplo, és contra a destruição da Amazónia, toda a gente o é, mas toda a gente continua a comer carne primeiro preço alimentada com cereais, nomeadamente a soja que vem e é responsável por essa mesma deflorestação, basta fazer a escolha de não consumir (nota que 80% da soja produzida na Amazónia é para alimentar animais, que por sua vez são criados para nos alimentar) boicotando o produto, boicotas o sistema, cabe a ti e a todos de o fazer,  como os produtos da China, O MacDonald, o Aliexpress, a CocaCola, a Amazon e etc, mas tem que se ter a consciência das consequências e aceitar que não se pode continuar a viver da mesma maneira, as pessoas querem tudo, falam de tudo, criticam tudo, mas a capacidade para agir, que está mesmo ao seu alcance fica sempre para amanhã, metendo bandeirinhas da Ucrânia ou do “Je suis Charlie”, ou do que quer que seja no perfil das redes sociais, e os Iémens e as Somálias, e as crianças e isto e aquilo, onde andam? Vão com o buzz mediático? A Maria-vai-com-todos? Não, não quero eu, na minha humildade pregar sermões ou falsas morais, mas, eu tenho a consciência de que é preciso agir e parar com a hipocrisia, que é preciso abraçar essas decisões e sim, eu tomo-as e eu faço-as, como já tenho vindo a falar por aqui. Continuo a acreditar que o boicote é uma das melhores armas que temos contra este sistema e citando Gandhi “sê a mudança que queres ver no Mundo” tento faze-lo, o melhor que posso, e acredito que a mudança virá um dia, esteja eu ainda aqui ou não!

Para concluir e voltando a 1984, qualquer parecença entre esta distopia de Orwell e a realidade nada mais é que uma pura alucinação de complotista, negacionista, brunista e mais uns quantos istas, e sendo eu muitos desses istas, serei aquilo a que muito consideram ou chamam de maluco, deixem-me então ser um maluco, portarei de bom grado o meu chapéu de alumínio, protegido contra ordens alienígenas, serei e sou um maluco, mas um maluco livre, livre e consciente das minhas escolhas e consequências das mesmas, prisioneiro num mundo de malucos, sim, talvez todos eles, sem dúvida muito mais malucos do que eu, mas deixem-me ao menos viver livre a minha loucura, às crianças e a todos aqueles que querem ser verdadeiramente livres e não nos queiram prender no vosso mundo!



Publicado originalmente no Facebook a 26 de Fevereiro de 2022

Matei o galo, Charly à Morue

 

Matei o galo ontem, não, esta crónica nada tem a ver com Benfica-Sportings nem futebóis, faz três anos que não vejo um jogo de futebol, e para quem me conhece sabe o quanto isso é grave, mas não posso, nem quero, apoiar mentiras por isso simplesmente boicotei, chamem-me brunista, negacionista ou qualquer outro ista, na verdade, nem sequer sabia que jogavam, descobri hoje por acaso, no meu feed de noticias do facebook, mas pronto, voltando ao assunto e ao galo…

Matei o galo, ontem de manhã, apanhei-o de manhãzinha na alvorada gelada, assim que abri a porta do galinheiro, estava à espera dele com um saco, para o caçar assim que ele saísse, e ele saiu, como sempre em primeiro, mas por forças ocultas mudou a sua rotina ou sentiu a minha presença ou pressentiu o seu futuro e ficou à porta, sem avançar, fi-lo avançar com um gesto e fechei a porta atrás dele para que as galinhas não saíssem, para que elas não vissem (olhos que não veem coração que não sente, diz-se) o saco já não servia para nada, corri atrás dele e entalei-o contra a vedação, apanhei-o, segurei-o pelas patas, virei-o de cabeça para baixo e levei-o para o lugar que tinha preparado no canto do jardim, uma tabua rija no chão, o machado, uma faca e uma panela, e preparei-me para a matança. Pousei-o sobre a tábua, pus o joelho em cima das patas, para que não as mexesse, puxei-lhe as asas para trás das costas e prensei-as também com o outro joelho libertando-me assim as duas mãos, fiz uma prece por ele, sem juntar as mãos que não preciso disso, ele, ainda mexia a cabeça e tentava levantá-la, mas à força da posição ela ficava à mercê do meu machado e foi o que fiz, peguei no machado e de um golpe só, seco e forte, matei-o, cortei-lhe o pescoço, o corpo estrebuchou com força, abanou e segurei-o para que não fugisse pelo jardim, de cabeça pendida a correr-me por cima das couves, morreu de um golpe só, mas mesmo se o pescoço tivesse separado do corpo a pele não se tinha separado, ora ou o machado não estava suficientemente afiado ou a pele, demasiado forte e elástica não cedeu e por isso tive que fazê-lo com a faca, degolei-o e deixei escorrer o sangue para a panela, queria tentar aproveitá-lo para fazer uma cabidela, mas como não sou ainda muito dotado nestas coisas não consegui recuperar grande coisa. Fez-se silêncio. Depenei-o na hora, mesmo se tinha preparado uma panela de água a ferver, sabia e já o tinha feito a seco com o meu outrora cunhado, na região de Ardéche, na realidade enquanto o corpo está quente consegue-se arrancar as penas sem problemas, tirando as maiores, das asas e da cauda, mais duras a arrancar.

 Levei-o para casa onde o lavei, limpei o interior, abri-o pelo ânus e extrai todo o interior, os intestinos, pulmões, fígado, coração, tudo, a moela também, no entanto é preciso abri-la e limpá-la, coisa que falhei, cortei-a onde não devia e sujei-a, é o que dá ser um maçarico nestas andanças, então, mas ò Pedro, nunca fizeste isso? Nas férias, no natal, na terra? Terra? Qual terra? Como gostava de responder com orgulho ou ironia, a minha terra era o Cacém, bom, mais precisamente a Agualva-Cacém, mas isso era mais difícil de explicar, o natal e as férias grandes eram lá passados e era a minha avó, que na sua sábia e longa existência analfabeta, sabia todas estas coisas da terra, até que a casa, os campos e as quintas ao pé do campo do Agualva foram arrasados para a construção de prédios e mais prédios, e até que ela, e o meu avô foram viver para um apartamento num terceiro andar, e ela, mais resistente que o meu avô, foi envelhecendo até morrer com os seus altivos noventa e seis anos, e eu, mesmo se ainda me lembre dessa humilde casa onde o meu pai e os meus tios cresceram, debaixo de uma figueira entre galinhas e coelhos, nunca pude, infelizmente, ter acesso a esses conhecimentos, por isso, a moela, acabou por ser cozida com outros restos e ossos para o cão, que aqui nada se desperdiça!

A minha mulher disse-me, ah, lá vais tu fazer outra vez a moral aos outros, não, não mulher, não se trata de fazer a moral, trata-se de mostrar aos outros que as coisas, as palavras, não podem ser só da boca para fora e que se falamos de autonomia alimentar, se falamos de elevar a consciência e que se comemos carne deveremos perceber de onde vem, como se mata, a proximidade da morte e o quanto custa uma vida, sim, porque mesmo que esteja orgulhoso de ter tido a coragem de o fazer, foi a primeira vez, e mesmo sabendo que tinha que o fazer, sinto na mesma uma certa tristeza de ter acabado com uma vida e quem vive na proximidade dos animais sabe que eles também têm uma alma, que também têm um pedaço de Deus dentro de eles e que também têm direito à vida.

Convidámos por isso os meus sogros a virem cá almoçar hoje, uma espécie de homenagem a Charly o galo, no entanto, e visto que a minha mulher e o meu sogro não comem carne, ofereci-lhes bacalhau, ou como quem diz em francês, de la Morue, o Charly, esse, com os seus dois quilos e meio já limpo, foi ao forno durante quase três horas, com ervas alho e limão!

O Gabriel, esse, já me pedia há umas semanas, pai, quando é que matas o Charly, quero comer frango e quero as suas penas verdes, nada como a sinceridade cruel das crianças, mas na verdade, só o matámos porque se tinha tornado agressivo e não podemos dar-não ao luxo de ter um animal agressivo no pátio, a mandar bicadas e sem nos deixar passar, sobretudo com crianças ao pé, e foi por isso, sobretudo por isso, que o Charly à Morue!

 

Publicado originalmente no Facebook a 30 de Janeiro de 2022


2022 Decisões, Previsões, Impressões e outras Implicações

 

Tinha, na minha última crónica, escrito sobre prever o ano de 2022, o meu, não o do mundo que isso é demais para mim, mas por força das circunstâncias o trabalho foi protelado até então!

Faz por esta data uns dez anos que terminei o meu Mestrado em Artes Plásticas e meti-me na cabeça há uns meses atrás a ideia de dar uma volta na minha vida profissional e finalmente poder vir a trabalhar da arte, ( o mais próximo que estive disso foi: para além das performances enquanto Pai Natal e duende em Óbidos, o trabalho que a Isabel me tinha arranjado em Londres como técnico de manutenção e transporte  de obras de arte) no entanto, por várias e diversas razões decidi abandonar essa ideia a presente.

Porque será que alguém que investiu nisto, mais de 10 anos da sua vida, sim, contanto no mínimo com o ensino secundário, estaria agora, dez anos depois, próximo do seu objectivo, disposto a abandonar a ideia de viver da arte, depois deste tempo todo? Ora porque eu não ambiciono viver da arte, eu ambiciono viver para a arte, o que faz e é, uma grande diferença, chamem-me um romântico, um utópico ou o que quer que seja! Eu considero que a arte (a verdadeira) tem o poder de mudar as pessoas e o mundo e é nisso que eu quero investir a minha vida, se isso depois der para eu viver tanto melhor, se não azar, mas eu acredito na mudança e acredito (ainda) na humanidade, acredito que esta Terra poderia e pode ainda ser o Paraíso, que os homens têm um fundo de bondade e que transformando a mentalidade das pessoas poderemos transformar o Mundo, e que a Arte tem esse poder de mudar mentalidades. 

Esta última passagem de ano permitiu-me voltar a Lisboa, (desde antes da pandemia que não ia a uma cidade desse tamanho) e deixou-me profundamente triste ver o condicionamento e o estado de alma da maioria das pessoas que cruzei, lembro-me de estar no autocarro e ver toda essa gente entrar com as mascaras na cara e os olhos vidrados, cinzentos, cansados. Não farei, por hoje, morais quanto às politicas que têm sido tomadas para combater esta “pandemia”, mas poderia deixar aqui algumas questões logicas e obrigatórias sobre o caminho que temos seguido enquanto indivíduos e comunidade e falar sobre engenharia do consentimento, controlo de massas, etc., mas deixarei isso para uma outra vez, o que é certo é que isso também se reflete na minha realidade e levou-me a mudar a minha estratégia para este novo ano.

Decidi assim seguir uma estratégia baseada no Taoísmo e no conceito da não-acção, que significa mais ou menos que não agindo, ou parando de agir, sem forçar e deixando que o mundo e a vida sigam o seu fluxo natural, o que tiver que chegar até nós, chegará. Ora isso é mais fácil de dizer do que fazer porque vivemos constantemente na angustia do futuro, do fazer e do querer, no entanto decidi tentar abandonar esses sonhos e simplesmente deixar-me levar pela corrente. Mudei assim de objectivos, aceitei a pena do trabalho e centrei as minhas ambições na escrita do meu segundo livro, é esse, o meu único projecto palpável para 2022, tudo o resto será, como se diz na giria, o que Deus quiser!

Ora foi precisamente por causa do trabalho,  que hoje, no meio das vinhas e dos meus colegas romanos decidi e pensei esta crónica, começo a estar farto de estar rodeado de brutos, de homens que só falam e desejam guerra e violência, que veem as mulheres como objectos e que não pensam em nada mais do que a eles próprios, sem a mínima noção de sociedade ou de todo, homens que ainda mandam lixo para o chão, mas  bom, sobre eles farei a minha homenagem mais tarde, a quando de um livro que também já existe na minha cabeça, faltando somente materializa-lo mas os pensamentos voam mais rápido do que a luz e não tenho tempo para fazer tudo o que queria e gostava, mas sim, como dizia, foi, no meio disto quem meti os meus auscultadores e dei com o Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd e fui enviado directamente para o espaço, já não estava ali presente no meio das vinhas, não ouvia mais ninguém, só aquela musica psicadélica, aquele arquétipo de beleza que me enviava para lá do sistema solar, e pensava  no psicadelismo e que não é preciso drogas para viajar, o poder da mente é suficiente, na realidade, o facto de não me querer injectar uma droga experimental no corpo foi uma das razões de continuar nas vinhas, digamos que já tive o meu período de drogas experimentais, onde sabia perfeitamente o que elas me faziam ao corpo e à mente, era, de facto a mente, que eu queria aniquilar, não o corpo, em relação a esta nova droga proposta recuso e com isso aceito as consequências nomeadamente o que a ofertas de emprego e vida social diz respeito.

A minha mulher, teve hoje, e não é a primeira vez que o faz uma saída pertinente em relação a isso enquanto que eu me enervava com os miúdos por causa das birras, dizia ela: “lá vais tu fazer o filosofo para os outros quando é aqui em casa que o devias fazer, ou ser”, na realidade tem razão, mas antes de me ocupar da minha casa tenho de me ocupar de mim próprio, é lá dentro, dentro de mim que tenho primeiro que me limpar, ela sabe, foi também, uma das razões dadas para continuar neste caminho, trabalhar a paciência, a perseverança, aprender a aceitar o caminho escolhido, por mais duro que ele seja, a culpa não é de mais minguem que não de ti próprio! Entretanto estou a ficar velho e cansado, fiz 36 e parece que tenho 46, os cabelos caem, a barba fica branca, as rugas formam-se no meu rosto e a pele endurece e nada disto é obra do Sol!

O caminho traçado poderá sofrer desvios abruptos e mudanças inesperadas, mas nós estamos aí, abertos à mudança, abertos ao desconhecido, sem medos, sem receios, com alegria e amor!

Un emmerdeur!



Publicado originalmente no Facebook a 21 de Janeiro de 2022




Elias e o carro de Fogo

 

Já faz algum tempo que nada tenho escrito por aqui, certamente porque tenho muito mais que fazer na vida do que andar a escrever textos nas redes sociais, no entanto esses textos, permitem-me por vezes não só limpar a mente de algumas ideias como também (e é esse o meu primeiro objectivo) passar essas ideias ou mensagens a quem os lê, no caso de hoje, sobre algo que tenho vindo a fazer ao longo do ultimo ano, isto é, a escrita do meu primeiro livro.

Terminei então a escrita desse meu primeiro livro, intitulado “Elias e o Carro de Fogo”, um livro escrito com uma intenção inicial, que se foi moldando durante o tempo, uma espécie de um ensaio romance, um pouco de ficção e muito de auto-biográfico (não fosse a auto-análise uma das melhores terapias para vencer o ego, esse problema cronico dos artistas), mas avançando, um relato de um pai e as suas problemáticas na vida, o percurso da sua família ao longo dos nove meses de gravidez, com mudanças de casa, trabalhos, lugares, doenças e outras situações no caminho da mudança e na busca da felicidade.

Tinha como intenção primária que este livro funciona-se como um exemplo, que mesmo nestes dias obscuros que temos vindo a viver, que com esforço e dedicação podemos mudar o nosso próprio caminho e que nada poderá deter essa vontade, e que outro exemplo poderei eu dar melhor do que aquele que eu conheço melhor, o meu, tendo escrito este livro entre as cinco e as seis da manhã antes de ir para a minha rotina de trabalho ao longo deste ano de 2021, ele está pronto, finalizado, à espera somente de editora que o pegue (isso, será tratado no devido tempo, mas aceito sugestões). Nada disto é presunçoso, não quero aqui vangloriar-me, ou dizer que faço e aconteço e isto e aquilo, quero simplesmente fazer-vos saber que é possível, mostrar que se pode continuar a sonhar, que se pode mudar o rumo dos acontecimentos, com força de vontade e coragem, e com muito trabalho, como a galinha, grão a grão, dotados de uma dose infindável de paciência e benevolência para com isto tudo, como diria um outro filho de Deus (perdoai-os meu pai, porque não sabem o que fazem!).

Bom, voltando ao assunto, de salientar que o segundo livro já está programado e logo, logo, começará a ser escrito, por agora tenho outros afazeres e prioridades, mas cada coisa no seu tempo, escreverei qualquer coisa por aqui, ainda antes do fim do ano, talvez previsões para 2022, até lá ainda muita coisa vai rolar (como dizem os brasileiros), deixo-vos então, assim, com um pequeno excerto que acho particularmente bem conseguido, espero que gostem, um abraço e até já.

 

“Nunca pensei que ser pai viesse a ser isto, às vezes acabamos por nos comportar como crianças, completamente embriagados nas brincadeiras e nos risos dos nossos filhos, abraçar, dar beijinhos, mudar fraldas e morder as bochechinhas e as perninhas e rir como um idiota com o seu sorriso, dar-lhes banho, amor e a papinha à boca, e não dormir noites e noites, ouvir chorar e mais chorar, ficar com os nervos à flor da pele, desesperar e embalar e transportar a eles e a mais vinte mil coisas às costas, sacos e carrinhos de bebé, roupas, brinquedos, tralhas e começar a ver os primeiros passos e correr atrás, dobrado para servir de apoio ao caso de se desequilibrar e ter medo, muito medo, medo que caia, medo que se aleije, medo que sofra, porque nós sofremos também, medo que se engasgue, medo que morra, porque qualquer acidente com as crianças pode ser fatal, e se ele morrer, nós morremos com ele e todo o nosso sonho é destruído, mas mesmo assim vamos continuando, enfrentando esses medos de dia para dia porque não temos outra escolha a não ser fugir, mas se fugires já não és pai, e onde anda o amor e a doçura? Onde anda a poesia? E agora já anda, já corre, já salta, já fala, já grita e canta, já vai à escola e o tempo passa, mas os seus olhos continuam a brilhar alegria e inocência e tu só o queres proteger, que ele continue assim, que ele não perca essa alegria e essa inocência própria das crianças, esse olhar, que ele não sofra o que tu sofreste enquanto cresceste e enfrentas-te a vida, que dói, e os desgostos de amor e as amizades e a escola e as lutas e o trabalho e as frustrações próprias da vida, e todas essas coisas que vão construindo em ti um muro de betão, de resistências e medos face à vida e aos outros, mas não há volta a dar, tens que os enfrentar, és obrigado a fazer cair o muro que te separa dos teus sentimentos e emoções e aproveitar ao máximo cada segundo da vida, cada momento que tens com ele, mesmo quando chegas a casa derreado do trabalho e só queres dormir e descansar e ele vem e não te deixa, salta-te em cima e se não aproveitares agora, aproveitarás quando? Quando ele for mais velho e partir? Sim porque um dia todos partem, quando ele já não quiser brincar com o seu pai? Quando o relógio do tempo indicar as horas da velhice e ele já não for o menino pequenino que é, quando viver numa outra casa quem sabe, quando ele já não estiver lá, quando ele já não estiver aqui, poderei eu olhar para trás e dizer que fiz tudo o que podia por ele? Por nós? Por mim? Tentarei.”



Publicado originalmente no Facebook a 3 de Dezembro de 2021