quarta-feira, 3 de maio de 2023

Entre Abril e Maio, pontes para Toda a Gente

 Tenho andado por aqui às voltas, na minha cabeça, claro está, de como abordar estes assuntos que por nós têm passado, nomeadamente, os quase 50 anos do 25 de Abril e o 1° de Maio.

Ora irei então, começando de trás para a frente falar primeiro, do que se tem passado em França e sobre esses Maios que têm a histórica tendência de se tornarem explosivos. Não querendo estender-me aqui em explicações sobre politica internacional, neste caso francesa, nem sobre a organização das eleições em França, nem de como Emmanuel Macron chegou ao poder, sou na mesma obrigado a enquadrar certas situações e direi simplesmente assim, o presidente é eleito minoritariamente, com uma margem de votos à volta dos 25% à primeira volta, e concorrendo na segunda contra Marine Le Pen, (2017 e 2022) mas tem poderes absolutos, visto como está, depois de De Gaulle, organizada a estrutura das decisões politicas em França.

Ora, este governo de Macron é, sem dúvida, o pior e o mais terrível governo francês, talvez até mesmo mais do que o do Marechal Petain, colaborador com o regime nazi alemão. Macron, não trabalha para os franceses, trabalha para as grandes corporações, para os bancos e para a perpetuação dessa mesma casta no poder, aliás, foi essa mesma casta que o lá meteu, isto não são teorias do complot, é a realidade, por exemplo, todos os grandes grupos de Média franceses são propriedade de bilionários que fazem e fizeram campanha por e para Macron, mas isto não é tudo. A campanha foi suja, esta gente sabe como manipular e mentir às massas, vão por exemplo ver o documentário, the Century of the Self e vão ver quem foi Bernard Sanders para poderem começar a ter uma mínima, uma ínfima ideia do que as classes politicas sabem e fazem!

No meio disto tudo, Emmanuel Macron retirou o imposto sobre as grandes fortunas, reduziu o tempo e os direitos ao fundo de emprego, fez caça às bruxas durante o covid, aliás, o pessoal hospitalar que se recusou a picar-se com vacinas experimentais está, até hoje, suspenso de funções, já vai fazer dois anos, entretanto, e depois dos Gilets Jaunes, que começou por causa do preço dos combustíveis, e que revirou o pais em manifestações, só parando com a tal pandemia, bastante útil por sinal, avança com mais uma reforma contra toda a sociedade, impondo através de um mecanismo que é o artigo 49.3 para estados de emergência, e que já usou mais do que todos os outros governos juntos, sem direito a debate, mesmo contra a moção de censura na assembleia, contra todos os sindicatos e patrões, com o aumento da idade da reforma para 64 anos, de dizer que Miterrand, em 1982 tinha imposto os 60 anos, e estava agora em 62!

Tudo isto e muito mais leva a que a sociedade francesa, se revolte e se manifeste, e como consequência disto, temos uma repressão policial nunca antes vista, falo de policias de choque a lançarem frequentemente granadas contra a população, a dispararem (à cara) balas de borracha, as chamadas LBDS que já tiraram, olhos e mãos e membros a mais de uns trezentos franceses, a despejarem gaz lacrimogénio e a baterem em tudo quanto mexe desde 2018, isto, claro está sobre pretexto de conter os desordeiros, e manter a ordem, a democracia e os valores republicanos, mas eu convido-vos a irem ver imagens. É a politica do medo, são de tal forma violentos que as pessoas até começam a ter medo de exercer o seu direito de se manifestar. Mas àsvezes os ventos mudam, e neste 1° de Maio de 2023 só a titulo de exemplo, um policia levou com um cocktail Molotov na cara, porque as pessoas estão a começar a ficar fartas de levar e porque violência gera violência, e para gaudio de quem dirige as finanças e os destinos deste mundo, as sociedades têm vindo a ficar (propositadamente) cada vez mais fracturadas! Sobre a policia a única consideração que posso fazer é que, estão do lado errado da barricada e trabalham, enganados para os verdadeiros opressores, os criminosos de colarinho branco e em muitos casos, verdadeiros assassinos, como eu costumo dizer, se existem homens capazes de matar a própria mãe por 5 euros, não existiram outros sem escrúpulos capazes te tudo isso e muito mais por milhões, biliões, controlar países?

Ora eu sei que Macron é só um espantalho, um tipo que faz bem o serviço pelo o qual é pago, e deixando a França passo então essa ponte 25 de Abril de volta a Portugal.

Em Portugal, ao contrário de França, os governantes poderiam aumentar a idade da reforma até aos 80 ou 90 anos que nunca se iria passar nada, não foi depois de 40 anos de Estado Novo nem depois de uma guerra colonial, que se passou, nem será agora. Sim, porque é preciso, do meu ponto de vista, acabar com essa mentira da revolução, não houve nenhum povo português que se revoltou, houve sim, meia dúzia de militares, que fartos que estavam da guerra e das coisas, decidiram então pôr fim à brincadeira, num qualquer outro pais do mundo, tanques com militares que entram numa capital e fazem cair um governo é chamado de Golpe de Estado, ou Golpe Militar, não de revolução, mesmo se depois seja para formar eleições livres, e foi isto que aconteceu no nosso pais, não vi, nunca, nenhum povo se revoltar contra a sua situação, contra o seu opressor, não houvessem Dons Sebastiãos e ainda hoje estávamos debaixo do jugo do Estado Novo, não hoje não, hoje já estaríamos com certeza, como estamos, vendidos ao capitalismo, pois nada lhe consegue resistir, a esse rolo compressor de almas!

Dito isto, gostaria de terminar num tom mais positivo, sou e sempre serei defensor dos valores de Abril, sim, porque é isso que importa em Abril, são os valores representados, de Liberdade, de Fraternidade, de Igualdade, e a revolução dos Cravos sem sangue, só com gente contente e feliz, é isso. Tudo isto das revoluções leva-me primeiro à India do inicio do seculo XX e a Gandhi, obviamente e à sua resistência pacifica, e desobediência de massas, voltando depois a Portugal, mais precisamente a 1997 e ao terceiro capitulo dos Da Weasel, dizia entao Pac-Man assim em “toda a gente”, que eu sempre gostei de citar rappers:

“… Há quem costume falar de revolução
Mas a revolução não vai ser transmitida na televisão
Ela tem que acontecer dentro de cada um
Caso contrário nunca chegaremos a lugar algum …”




quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

REVELATIONS 23


Tenho tido por hábito escrever por aqui uma crónica de inicio de novo ano, revelações, ideias ou projectos a ter para essa nova viagem à volta do Sol que começa todos os 365 dias por estas datas, no entanto, nada ou pouco tenho tido para dizer nestes tempos que correm.

A vida tem seguido o seu ritmo com altos e baixos, concentrada no rame-rame do dia-à-dia, a escola dos miúdos, a renda para pagar e isto e aquilo e de como nós andamos todos para aqui a tentar sobreviver neste simulacro de mundo, de sociedade, guiada e manietada por gente que, a meu ver, não tem verdadeiramente boas intensões, que dispõe e predispõe dos meios para nos subjugar a uma escravidão mascarada de falsa sensação de liberdade e democracia, entre futebóis e guerras convenientes, outras menos, entre falsos discursos de recessões económicas e energéticas e pandemias que vão e vêm como eu mudo de camisa, poderia eu perder o meu tempo a derrapar sobre estes assuntos, mas de nada vale, nada convenço, de nada serve gastar essa tao preciosa energia, poderia também contar por aqui a história de como a minha cadela perdeu o olho nesta véspera de natal, no dia de aniversario do meu mais novo, e do veado que cruzei na floresta e que me falou, mas tudo isso são coisas do passado, são coisas de um fim de ano que já lá foi, e é no presente e no futuro que precisamos de centrar o alvo.

 

Revelações, assim como para os três pastorinhos, tenho que as guardar para mim, não quero ser desmancha prazeres, spoiler da minha própria vida, simplesmente sei, que é hora de mudar, um ciclo passou, e outro acabou de chegar, mudanças e mais mudanças nesta roda da vida, assim como o cabelo, que se corta e volta a crescer, assim como as folhas das árvores, caducas, que caíram e renasceram numa nova Primavera, temos, tenho, sem duvida de fazer uma limpeza em mim mesmo, de dentro para fora, por exemplo, libertei-me das vinhas e abri a minha própria microempresa, com o objectivo de daqui por um ano e meio estar então, completamente independente economicamente falando, mas se quero que ela funcione não posso andar aqui a perder o meu tempo a fazer fotomontagens e textos vazios nas redes sociais em vez de usar esse mesmo tempo para fazer avançar a empresa, que preciso de ir buscar a força que reside dentro de mim para combater e vencer essa preguiça que me assola, esse medo de falhar e que me leva à inercia, essa moleza de deixar para amanha o que podia ter feito hoje, não é Variações?

 

Por isso, neste novo ano solar, não posso, mais do que outra coisa, deixar de vos desejar coragem, de vos dizer de seguirem em frente com os vossos sonhos e que não se deixem abater por nada nem ninguém, não se deixem enganar, desliguem a televisão e venham viver a vida. Não sei se já citei uma vez ou não, mas nunca é de mais recordar as palavras, ou melhor, o livro de Baden Powell, fundador do escutismo: “Impele a tua própria Canoa”. As minhas revelações estão lá, coragem, saúde, força, vontade, amor, felicidade e gratidão. Obrigado por tudo, por aqui continuarei, de pé!

 

Um Grande Abraço e um Óptimo Ano Novo a todos




sábado, 19 de novembro de 2022

Mundial Vai-te Catar 2022 e Afins

Já faz um tempo que queria falar sobre este assunto tornando-se agora, com o aproximar da data o momento oportuno para o fazer.

Começa então amanhã o Campeonato Mundial de Futebol de 11, que se repete todos os quatro anos, desta feita no Qatar ou Catar, como quiserem.

Mesmo sabendo que este evento tem estado sempre envolvido, que eu saiba pelo menos nos últimos 30 anos, em altas polemicas de corrupção económicas e politicas, nomeadamente ligadas às decisões da FIFA não só pela entrega do evento a determinados países, mas também com a obrigatoriedade de certas despesas criadas pelos estados para o próprio evento, como a construção de estádios por exemplo, a nível europeu (UEFA) isso também se passa, como foi o Euro 2004 bom exemplo disso mesmo, no entanto este ano, eu diria que chegamos a um ponto em que o escândalo é de tal maneira gritante que já não da mais para fazer como o macaco e tapar boca, ouvidos e olhos.

Ora a escolha do Catar como pais organizador está envolta em polémica desde o inicio, e na altura, questões foram levantadas a esse respeito, mas vou aqui dar um único exemplo: o Paris Saint-Germain, mais conhecido como PSG e neste momento um dos clubes economicamente mais poderosos do mundo foi, uma das moedas de troca para que a França, na altura liderada por Sarkozy, votasse a favor do Catar para organizador, isto é, o príncipe do Catar, comprou o PSG e não só, para que o Catar fosse organizador do mundial de futebol.

Ora se a corrupção económica envolvida nestas negócios do mundo fosse a única coisa de grave a sinalizar, nós poderíamos (mesmo se toda e qualquer corrupção são a desprezar e criminalizar) mas, poderíamos minimizar o problema, o que se passa neste caso é que a própria organização e construção do Mundial e dos seus estádios estão assentes em três factores que deveriam fazer repudiar todo e qualquer bom cidadão, e passo a citar: organização de um evento mundial num país que não respeita as mulheres nem os direitos dos homens, ponto numero dois, num momento de grandes problemáticas ambientais e necessidades de mudar a nossa forma de consumir e habitar o mundo a criação de estádios e uma organização extremamente energivora e anti-ambiental, poluidora e criminosa são impensáveis e insultantes, e ultimo ponto, utilização e exploração de seres humanos, neo-esclavagismo e assassinato.

Dito isto, e clarificando, para além de ser um país que não respeita a igualdade, as mulheres, as minorias e os direitos dos homens, é um país que recorre à mão de obra escrava, existem vários exemplos e documentários sobre isso não vou aqui alongar-me, onde morreram mais de 6500 trabalhadores para construírem estádios climatizados no meio do deserto para uma única utilização e que irão ser desmantelados no final do evento. Para além de todas estas barbaridades juntemos a isto o facto de comprarem adeptos e passagens de avião, milhares delas, para que essas pessoas, vão aos estádios e voltem aos hotéis ou casas centenas ou milhares de quilómetros de distancia.

No meio disto tudo, Federações de Futebol, governos e patrocinadores, cúmplices, fecham os olhos, pedem-te que te cales e que dês espaço ao jogo etc., hipocrisias, bandidos, mentirosos, na realidade, ver um único minuto de jogo deste mundial é estar a aprovar e a patrocinar estas politicas, o neo-esclavagismo e a pouca-vergonha de quem governa o mundo.

Comprar um único produto de um patrocinador deste evento, ver um único minuto deste evento é afirmar que tudo vai bem e que eles podem continuar a destruir o mundo e as pessoas para seu próprio proveito, na realidade continuam a querer faze-lo organizando por exemplo os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 na: tam tam tam tam: Arabia Saudita! e não me venham com retóricas que é só um jogo, e que são os chineses que poluem e os indianos e etc. como fizeram e fazem todos esses reacionários sobre os jovens ambientalistas na UL ou com a Greta por exemplo, cada um é responsável das suas próprias escolhas e decisões, a mudança não está nos outros, mas em nós mesmos.

Todos se queixam que está tudo na mesma, mas quando chega o momento de agir e mudar ninguém quer mexer uma palha confortáveis que estão acorrentados nas suas gaiolas douradas, dêem-nos um sofá e o circo do futebol, que isso é que é divertido e o resto que se foda.

Talvez para outro dia, mas faz mais de três anos que não vejo um jogo de futebol e quem me conhece sabe que isso é uma mudança, na realidade desde o que fizeram a Bruno de Carvalho, eu sei do que falo, que o futebol e o Sporting acabaram para mim, mais do que ver a bola rolar, existem valores a respeitar, neste mundial é igual, mais do que ir ao circo ver os palhaços, ou será que é o espectador o palhaço, prefiro guardar os meus valores e continuar no meu caminho de mudança.

Hoje em dia consumo é politica e é preciso estar muito atento ao que consumimos pois isso define e é uma acção politica em si. Não comprar coisas da china, não comer fast food (Mc Donalds por exemplo) 80 ou 90% da produção de soja e consequente destruição da Amazónia é para a alimentação de gado que serve a produzir carne para consumo humano e sobretudo europeu, ao contrario do que vos vendem certos reacionários ignorantes, não beber coca-cola (grande poluidor mundial), não comprar cebolas da Austrália quando tens cebolas locais, mesmo se te custe mais vinte ou trinta cêntimos ao quilo, tudo isso são posições politicas, tudo isto é politica e é preciso estar atento e activo, para não permitir que continuam a fazer de nós gato sapato!

Dito isto, e para que conta ainda ver egos do tamanho do mundo correr atrás de uma bola, pensem bem sobre quem apoiam e a quem dão o vosso dinheiro, porque tempo é dinheiro, mas energia também o é, e a tua energia é vital, é vida.

Coragem e um Grande Abraço do Pedro aqui do meio do Mediterrâneo



terça-feira, 6 de setembro de 2022

Poesia

Já faz muito tempo que não pensava em poesia e enquanto me revirava às voltas na cama, veio-me ao espirito qualquer coisa parecida com isto que mais abaixo partilharei, no entanto, e como a preguiça é aliada do silêncio e no que toca a não acordar as crianças deixo-me sempre ficar, deitado, sem anotar aquilo que o meu espirito debita ao meu cérebro adormecido.

As ideias e os pensamentos chegam-me quase sempre por essas horas, quando se está numa espécie de limbo entre o sonho e a realidade, algumas, tento-as anotar num canto da minha cabeça para as materializar no dia seguinte, ou quando posso. Tento faze-lo com quase todos esses pensamentos que me chegam quando os acho belos ou pertinentes, de arruma-los num canto da cabeça, para depois, no entanto, a maioria, por falta de tempo e preguiça, ou talvez porque já não tenho cantos na cabeça para tantos pensamentos que chegam, voltam enfim para os confins do vazio quântico, como numa onda que passou, quem sabe se retornará, a mesma onda, de novo, mais tarde, mas, como no mar, novas ondas virão.

 Assim, na sequencia destas ideias veio-me este poema ao espirito, pouca coisa, mas que quis, na mesma registar.


Pergunto-me, que foi feito de mim neste mundo?

Porque me encontrei eu entre rios e montanhas, entre vales e mares?

é como se, se tratasse de um sonho, de um sonho profundo

e foi de me encontrar no meio destes tantos outros lugares

que descobri a chama ardente, que me queima a lembrança

a minha alma pendente, no sorriso de uma criança

e vim eu de la de longe, do meio das casas da capital

com voz tremula e rouca de ser Alfredo Marceneiro

descobrir aqui no meio das vacas e do olival,

que o meu sangue é de um outro poeta, um tal de Alberto Caeiro.

 

No entanto, e concluindo, havia algo de muito mais importante que tinha para exprimir, e que se sobrepõe a tudo isto, que é o facto de que nada poderá vencer o espirito de uma criança, que do alto dos seus seis anos ela respira poesia e vida em cada gesto e em cada reflexão, então, no outro dia o meu filho disse-me assim:

Et si la vie n'était qu'un rêve de dieu?

que poderemos nós responder a tal pergunta a tal poema?


domingo, 31 de julho de 2022

O Homem e o Pão

Aquele dia seria um dia importante, era um dia importante, a minha mãe tinha-me incumbido de ir comprar pão, pela primeira vez iria sozinho comprar o pão, sozinho não, o meu irmão, um ano mais novo iria comigo, tínhamos na altura uns cinco ou seis anos de idade, se não me engano, talvez uns sete, já não sei bem, que isto da memória às vezes falha, não importa, o que importa é que a minha mãe, tinha-me dado uma nota de dois mil escudos, daquelas azuis com uma caravela desenhada, que eu tinha dobrada, guardada no punho da mão, e tinha-nos dado a missão de ir lá a baixo à loja, comprar umas bolinhas, dando assim mais um passo em direcção, nesta tarefa que é a maternidade e a educação das crianças, a um pouco mais de responsabilidade de autonomia e de crescimento.

Descemos no elevador, saímos do prédio, e fomos até ao centro comercial que se encontra logo ali ao lado, um daqueles centros comerciais antigos, dos anos oitenta, da idade do bairro. Na altura, aquele centro comercial era ainda bastante habitado, era um local de encontro de famílias e vizinhos, e providenciava toda uma serie de serviços que viriam a extinguir-se aos poucos, à medidas que os anos iam passando e que os shoppings foram crescendo como cogumelos na área da grande Lisboa, mas, por aquela altura era, como disse, um centro bastante movimentado, havia, à entrada, do lado do prédio onde eu habitava uma churrascaria, logo depois uma pequena rampa ladeava a parede do centro ate chegar a uma plataforma onde tínhamos acesso à esplanada do café, e à entrada principal feita de duas grandes portas vidradas.

Lá dentro, para além destes dois pontos alimentares que duram ainda e resistentes até aos dias de hoje, encontrávamos por aquela altura começando pelo segundo andar: o vídeo clube, onde alugávamos as nossas cassetes das tartarugas ninja, o cabeleireiro da Bela e da Lela, ou Lola, já não sei, na altura do Sr. Machado, careca por sinal, onde a minha mãe nos fazia rasar a cabeça. Havia também uma lavandaria e um cafezito, mais tarde encontrava-me lá com a malta, lugar de preferência para beber umas jolas e fumar uns cigarros, um terraçozito ao segundo andar por baixo dos plátanos do estacionamento, munido de uma mesa de matraquilhos e o jornal desportivo do dia. Em baixo, ao rés-do-chão e logo à entrada a loja do Sr. do Gaz, que vendia as botijas de gaz Galp para os fogões, o talho, o café, a churrasqueira, a drogaria do Pracash, se não me engano, um Sr. de origem paquistanesa que sempre lá esteve, nos seus quatro metros quadrados e que vendia de tudo, lembro-me, no entanto, de ir lá comprar pilhas, atacadores e aquelas cassetes amarelas para a family game, a nossa consola da época que joguei até à exaustão, até chegar a Playstation. Lembro-me que o centro chegou também por uns tempos a ter uma peixaria, uma papelaria, uma loja de street-wear, de uns irmãos gémeos que viveram por lá uns tempos e que vendia skates e latas de spray para graffitis quando era moda, lá para o inicio dos anos dois mil. Chegou mesmo a haver, também, um pronto a vestir, mas, nada disso interessa para esta história, onde o que interessa era o ponto onde se vendia o pão, o minimercado ao interior do centro, também ele detido por um Sr. Paquistanês, o pai do Américo, um rapaz que não jogava nada bem à bola, mas que de vez em quando brincava connosco, ou seria Pracash o Sr. do minimercado e o Sr. da drogaria o pai do Américo, já não me lembro, são partidas da memória, no entanto, onde a memória não me falha é então, nessa tal ida ao pão.

Depois de me ter dado as bolinhas de pão num saco de plástico, esse Sr., o dono do minimercado, pousou atenciosamente como quem conhece os seus clientes habituais, as notas, e as moedas do troco na minha mão, para me ensinar e mostrar as contas, ainda hoje tenho na memória vir a andar no passeio, de volta a casa com o meu irmão ao lado e o troco na mão, a nota de mil e a nota quinhentos escudos mais as moedas na mão, e vir a fazer um esforço para segurar bem esse precioso troco, e a ideia de reentrar em casa com o sentido de missão cumprida, mostrando assim, orgulhosamente à minha mãe o como era grande e responsável.

Subimos a rampa que dá acesso ao prédio, entramos no prédio e no elevador, a porta estava mesmo a fechar-se quando de repente voltou a abrir-se, uma mão gigante veio de cima, descendo violentamente e agarrando-me as notas, vi um homem voltar-se e sair pela porta do prédio a correr enquanto a porta do elevador se fechava à minha frente. Chorei até ao nono andar!






terça-feira, 10 de maio de 2022

10 anos de escravidão e o Paulo Coelho

 Existe um livro também transformado em filme, escrito por um afro-americano que narra a sua experiencia enquanto escravo, ele conta como a sua vida de cidadão livre lhe foi arrancada no norte dos Estados Unidos para ser transportado e feito escravo nos Estados do Sul, nas plantações de algodão, isso durou 12 anos, até poder finalmente conseguir (no caso desta historia) se libertar.

Ora não poderei nunca fazer paralelismos sobre a escravidão a que foram e são ainda hoje submetidos os meus irmãos negros mas posso sim fazer um paralelismo entre esclavagismo (trabalhar à força, sem ser pago e sabendo que se recusarmos a sentença é a morte) com neo-esclavagismo (que é o que vivemos hoje em dia devido à estrutura híper-capitalista em que a nossa sociedade se encontra, trabalhar, ser mal pago, muitas vezes mal tratado e sobe pressão, e assedio moral, para poder pagar o mínimo necessário à sobrevivência) poderia aqui fazer uma dissertação sobre isso, condições de trabalho, dependência económica de todas as necessidades básicas do ser humano, alimentar, habitacional, etc, mas não é o caso, deixo isso ao critério de cada um, mas sabendo que se recusarmos jogar esse jogo a sentença é a marginalização, o que para Sócrates  vai dar à mesma coisa que a morte!

Posso também fazer um paralelismo entre esses 12 anos de Solomon Northup e os meus últimos 10 anos. Durante esse tempo vi a minha vida de “cidadão Livre” me ser “retirada”, os sonhos prometidos pelo sistema de ensino e pela universidade foram todos pelo cano abaixo, acompanhados de uma grande dose de papel higiénico e empurrados pela força da água ao primeiro puxão do autoclismo. Durante estes últimos 10 anos que separam a data de hoje ao fim do meu mestrado (onde por curiosidade um dos júris de tese afirmou que comigo seria o tudo ou nada) o nada (a nível profissional) foi prevalecendo até ao inicio deste mês de Maio. Foi, assim, que neste inicio do mês de Maio, tento, com ajuda da minha família e do Universo reaver a minha Liberdade. Tinha precisamente em Janeiro escrito um texto onde abordava um pouco este sujeito, no entanto o Mundo da muitas voltas e dei por mim com duas crianças em casa a mandar o trabalho às ortigas, já não dá mais para participar nisto, já não dá mais para alimentar esta gente, este sistema, esta loucura, está na hora de mudar e se não se conseguir, ao menos que morra com a consciência tranquila de ter tentado, sim, tentar então viver para a arte e por consequente da arte, viver para a transformação de um mundo melhor, construir sonhos e tentar a meu jeito ajudar nesta transformação tao necessária e inevitável.

E isto leva-me então até ao segundo ponto, a Paulo Coelho e à busca da minha lenda pessoal. Na realidade tive contacto com os livros de Paulo Coelho à muito pouco tempo atrás, não sei porquê mas sempre tive a ideia que havia uma espécie de recusa da esquerda às ideias e aos livros de Paulo Coelho, provavelmente ligada ao esoterismo ou teor vamos chamar-lhe religioso que compõe grande parte das suas obras e isso levou-me por ideologia a nunca o ter descoberto, no entanto posso afirmar sem receios que foi o mais impressionante e mais forte que li nos últimos tempos, a par de Bernard Werber (ler as Formigas e a Borboleta das estrelas), papei quase uma dezena de livros dele o ano passado, e obviamente o incontornável Alquimista.

Ora a grande ideia por detrás de Paulo Coelho tem a ver com a ideia de que cada um de nós tem a sua lenda pessoal para viver, uma espécie de propósito de vida, de objectivo de realização supremo e que nos cabe a tarefa de o alcançar, e isto leva-me ao meu estado, aos desejos e sonhos que tive e alimentei durante toda a minha vida, que flui no meu subconsciente, à intuição e ao sentir dentro de mim mesmo aquilo que posso vir a ser, aquilo que sou capaz de fazer e à coragem que é necessária para quebrar os paradigmas que te prendem, esses sim as verdadeiras correntes da tua escravidão.

Foi então neste sentido que tentei de forma amigável meter fim ao contrato de trabalho que me ligava a uma empresa de produção de vinho, (essa kármica beberagem que muito contribuiu ao meu envelhecimento e destruição precoce) coisa que não foi aceite muito amigavelmente pela gestão da empresa, no entanto as decisões estão tomadas, o caminho é para a frente e o que vier veio, que eu tenho uma lenda pessoal para viver e filhos para criar, sem medo não, que o medo existe, mas ele existe para ser superado e vencido. A liberdade está dentro da nossa própria cabeça e nós somos os criadores da nossa própria realidade, podemos fazer deste mundo e da nossa vida um paraíso ou um inferno, cabe-nos de escolher.

Terminando num tom de psicadelismo para acompanhar a imagem de progresso e futuro e citando um certo contemporâneo de Paulo Coelho:

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”



sábado, 2 de abril de 2022

Papoilas

Cada vez que vejo papoilas que penso em ti, que me vem à memória, à lembrança, aqueles tempos em que pelos caminhos que levavam ao rio e à queda de água passeávamos e apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças. 

A nossa casa dava sobre um cruzamento para a estrada principal, era uma casa antiga composta de dois andares, num primeiro andar o apartamento, ao rés da estrada tínhamos a garagem, um antigo estaleiro de carroças da altura em que os carros ainda não existiam e o comboio era rei. Quando saiamos, descíamos pelas escadas exteriores que davam directamente sobre a estrada, do outro lado havia um parque de estacionamento e a antiga estação de comboios agora transformada em escola primária, e depois o rio, o rio atravessava tudo, vinha da direita, passava por debaixo da ponte que fazia a ligação entre a estrada onde vivíamos e a povoação e continuava para baixo, por detrás do parque, da escola, e descia ate à grande cascata que caia a pique, que fazia o nome da terra e que atraia turistas de todos os lados. Naquele verão, a azafama que pairava naquele cruzamento antes da ponte e naquele parque de estacionamento era de tal ordem que a mim só me apetecia fugir, ou ficar fechado em casa de janelas fechadas, ouvidos e olhos tapados à espera que o tempo e o barulho das buzinas e das motas passassem e nós, no meio disto que só queríamos viver descansados no campo, no meio das árvores e do silêncio. A casa tremia com o passar dos camiões ainda antes das seis da manhã e o barulho só terminava à hora que o sol se punha. 

Saia contigo de manhã, tentava faze-lo cedo, quando ainda não havia ninguém na rua, a passear, levávamos a Emma connosco, descia as escadas com ela pela trela e tu pelo braço, com paciência poderia deixar-te descer sozinho,  às vezes acontecia, mas àquela hora da manhã já estava enervado, andava sempre enervado, sempre com pressa que fizéssemos a nossa volta sem sobressaltos, primeiro, descer as escadas, depois, atravessar para o outro lado da rua, depois, atravessar o parque de estacionamento e a escola e depois sim, relaxar um bocadinho enquanto caminhávamos de mão dada ao longo do rio. Aí, largava a cadela da trela mas sabes como ela é, uma vadia que não ouve ninguém, não quer saber, só quer é vadiar e cheirar por aqui e por ali, e lá ia ela, bem mais à frente, abandonando-nos e deixando-me sempre no meio termo entre a velocidade de cão e a velocidade de caracol, de um pequeno menino de pouco mais de ano e meio que só queria brincar e descobrir o mundo e eu já enervado, anda Gabriel, anda que o pai tem que ver onde é que anda a Emma, anda, que vem lá alguém com um cão, e tu sempre de arrasto que eu ainda tinha na memória a historia do pitbull, e cada vez que a saiamos que eu vivia stressado com essa história e com medo de encontrar outros cães pelo caminho, e que ela se fizesse atacar e isto e aquilo e tentava despachar os nossos passeios o mais depressa possível, para poder voltar para dentro de casa onde o stress  e o medo deixavam de existir. 

Mas nem sempre foi assim, na maioria das vezes guardamos na memória os traumas que nos percorrem e sofremos com o passado esquecendo os bons momentos que passámos, ao prolongarmos o caminho à beira rio parávamos sempre numa pequena clareira no meio dos pinheiros, mais afastada da estrada e do percurso pedestre principal, ai, não havia ninguém e ficávamos por lá, a brincar com as fagulhas dos pinheiros ou a desenhar com paus no chão, do outro lado do cruzamento havia igualmente uma clareira, enorme, cheia de erva, de malmequeres e margaridas e passávamos horas a ver as borboletas azuis que por lá dançavam, mas o que tu mais gostavas era das papoilas, as bordas ao longo de todo o caminho pedestre que descia para a cascada estavam carregadas de papoilas, e tu adoravas apanhá-las, uma para ti, uma para mim, uma para a mãe.

Ontem de manhã ao chegar ao trabalho vi as primeiras papoilas da estação, e fiquei assim, a pensar em ti, o dia todo a pensar em ti, elas eram e são como tu, assim tão belas e tão frágeis que assim que as arrancamos da terra que as suas pétalas caem, e eu, sempre na minha brutalidade sem tacto para cuidar, tento fazer o melhor que posso e lembrei-me desses tempos, desses tempos em que apanhávamos felizes, margaridas e malmequeres, dentes de leão, papoilas e outras mais flores selvagens, eu, concentrado em tentar fazer bouquets de flores para a tua mãe e tu, mesmo se um pouco também, andavas sempre mais despreocupado, a descobrir todas essas maravilhas que esse pequeno mundo floral traziam ao teu grande mundo imaginário, no vagar próprio das crianças.